Por Homero Santiago
Quase todo dia experimentamos a sensação de descobrir algo novo ou que jamais reteve de fato a nossa atenção. Ainda assim, de vez em quando acontece de a vida e o mundo de tal maneira nos surpreenderem que se torna inevitável a exclamação: “Como eu não sabia disso!”
Foi bem essa a sensação que experimentei em dias recentes ao literalmente trombar, num museu outras vezes já visitado e que eu percorria por razões diversas, com uma pequena exposição (sala única conquanto ampla) dedicada à figura de Properzia de’ Rossi. Dela nunca ouvira dizer, e só então — por genuína obra do acaso — vim a descobrir esse caso singularíssimo de uma jovem que, em pleno Renascimento italiano, granjeou inédita fama como artista e sobretudo escultora, a ponto de ter merecido um capítulo — a única mulher! — nas célebres Vidas dos artistas, de Giorgio Vasari (publicadas pela WMF Martins Fontes), um compêndio que se costuma ler como precursor da história da arte, ao traçar um panorama da revolução em curso na Itália e especialmente na Toscana entre meados do século XIV (nascimento de Cimabue) e meados do XVI (morte de Michelangelo), a qual infletiria toda a arte (e por que não dizer, a cultura?) ocidental nos séculos seguintes.
“É interessante que as mulheres”, observa Vasari, “nas artes e nas práticas todas em que quiseram imiscuir-se com algum empenho, em qualquer época, sempre se mostraram excelentes e mais que famosas, como se pode demonstrar facilmente com uma infinidade de exemplos a quem talvez não acreditasse nisso.” Após essa constatação geral, chega o autor das Vidas ao específico de seu capítulo: as mulheres “não se envergonharam de empregar as macias e cândidas mãos em coisas mecânicas, na rudeza do mármore e na aspereza do ferro, para atenderem à aspiração de extrair fama de tais atividades, como em nossos dias fez Properzia”.
Ela nasceu em Bolonha, por volta de 1490, e morreu quatro décadas mais tarde vitimada pela peste; destacou-se nas artes e, entre outras atividades, mereceu o privilégio de trabalhar no canteiro da basílica de São Petrônio, o templo-mor de sua cidade natal. Ali repousa ainda hoje a mais significativa obra de Properzia: um mármore conhecido como José e a mulher de Putifar, elaborado entre 1525-1526 para a decoração de uma das portas da basílica. A quem o contempla, a perícia do esculpimento logo se patenteia; admirável é a distribuição dos volumes e das formas numa pequena extensão de mais ou menos meio metro quadrado; em particular, porém, surpreende e encanta a originalidade no tratamento do tema, que remonta ao Antigo Testamento (exatamente o capítulo 39 do Gênesis).
Após ser vendido como escravo pelos irmãos, José termina na casa do egípcio Putifar, chefe da guarda do faraó, onde ganha destaque e o direito de tudo comandar, a ponto de sugerir que, ali, o próprio senhor lhe devia obediência. José só não consegue controlar a esposa de Putifar, a qual, arrebatada pela beleza do rapaz, insistentemente tenta seduzi-lo, oferecendo seu corpo e suas graças ao escravo que, no entanto, teima em rejeitá-la.
A tradição interpretativa (persistente, como se deduz com uma rápida googlada) frequentemente viu na mulher oferecida uma figuração de Eva, a fêmea pecadora que, instrumento do diabo, tenta o homem e o encaminha à perdição. Ora, a quem souber ver (e rogo aos leitores, antes de seguir, contemplarem a imagem aqui oferecida), fica claro que Properzia, discreta mas decididamente, revirou essa opinião batida e — por que não o ventilar? — tão unilateralmente masculina. Ela relê de maneira assaz original o episódio e produz uma peça prodigiosa, ao mesmo tempo delicada e sensual, vigorosa na medida em que assume o lado humano e particularmente feminino da história.
Recordemos a cena. Certa feita, aproveitando-se de que não havia outros criados na casa, a senhora convoca José a seu aposento e lhe intima: “Dorme comigo!”. Apavorado, o jovem foge. Contrariada e vingativa, mais tarde a mulher acusa José de tentar violá-la.
A genialidade de Properzia está em captar e eternizar no mármore o exato instante em que, talvez desesperada pelo insucesso de suas investidas, a egípcia agarra as vestes de José, como a gritar: “Para! Não sai!”. A impetuosidade do movimento desnuda-lhe os seios, deixando à mostra o corpo oferecido e desprezado; a força do gesto (tanto mais marcada pela peculiar grossura dos braços) é contrastada pela fragilidade de um desejo irremediavelmente insatisfeito, quiçá de um orgulho esfrangalhado.
A peça encantou Vasari, que nela enxergou a expressão de uma “ardente paixão” vivenciada pela própria escultora. Sim ou não, jamais saberemos. Mas pouca importa, pois em nada nos obsta reconhecer e saudar a inventividade plástica e interpretativa demonstrada pela jovem Properzia de’Rossi, que — sempre nas palavras de Vasari — conquistou a unânime admiração de seus contemporâneos graças ao mármore depositado em São Petrônio. Um tão extemporâneo quanto admirável lance de ousadia feminil.
Homero Santiago é doutor em Filosofia e professor livre-docente de História da Filosofia Moderna da Universidade de São Paulo.