Texto | HOMERO SANTIAGO
A cada mês e meio sigo em família a uma cidade interiorana localizada a pouco mais de 200 quilômetros da capital paulista, o que, de carro, leva umas três horas com parada — em ônibus, entre quatro e cinco, o que demonstra a indigência brasileira quanto a esse benefício básico da modernidade, pelo menos desde meados do século XIX, que são as ferrovias.
Como não sei dirigir, fico invariavelmente condenado ao pior dos mundos, digo, dos lugares de um automóvel: o do carona não automobilista. Ao passo que os acomodados no banco traseiro ocupam um posto honroso (não à toa, nos táxis e quejandos os passageiros vão atrás), o carona é uma espécie de zero à esquerda: lá está, mas poderia não estar; se não guia, como é o meu caso, aí então vira um pária da pequena sociedade que se constitui no interior de um carro em viagem. Por graça, às vezes o chamam “copiloto”, mas como a condução de automóveis, ao contrário do que ocorre em aviões de grande porte e mesmo em blindados terrestres, está longe de exigir a copilotagem, o que sobra é o tédio, para nem mencionar a obrigatória e desmoralizante disponibilidade para receber a culpa por qualquer problema que ocorrer.
Quem está ao volante dirige, e sua utilidade é unanimemente reconhecida. Quem vai atrás faz o que quiser: lê ou dorme sem recriminação. Já o carona… Este não pode sequer cochilar; se fica calado, recriminam-lhe por não entreter o motorista; se conversa, acusam-no de tirar a atenção do condutor (recorde-se a frase nos ônibus: “fale ao motorista somente o indispensável”); tentar fazer algo (ler, telefonar, parlamentar com seus botões) está fora de questão, pois a qualquer momento é interrompido (“o que dizia aquela placa?”, “qual o limite de velocidade?”, “viu a ultrapassagem que aquele sujeito tentou?”) sem cerimônia nem pedido de desculpa. O carona é somente alguém que lá está de corpo e alma, inutilmente e disponível para qualquer coisa; e se reclamar, ainda lhe jogam na cara: “fica aí sem fazer nada e nem ajuda”.
No curso dessa imobilidade em movimento que é a vida do carona, uma das raras ações que lhe entretém, além de espreitar a paisagem, é ouvir a música que toca, com a aquela atenção monástica de quem nada mais faz, sem deixar escapar sequer as eventuais propagandas. Nessas circunstâncias foi que me chegou ao ouvido o comercial de uma fabricadora de automóveis que exaltava as maravilhas de seu atendimento pós-venda e assim concluía:
“Os serviços que seu carro merece com a qualidade que você precisa”.
Pus-me a matutar: como é possível que um carro mereça enquanto uma pessoa precise? É óbvio que nós, seres humanos, precisamos de muitas coisas; no caso, porém, a precisão (uma necessidade em geral objetiva) era fazer jus ao merecimento (uma valoração moral) da máquina. Teriam trocado as bolas na hora da gravação? Impossível; e por isso concluí que estava ali uma perfeita, embora minúscula, concretização do que um dia Karl Marx denominou o fetiche da mercadoria. Aquele sozinho reclame valia por um inteiro desnudamento das entranhas de nosso modo de vida.
O termo “fetiche” deriva do português “feitiço”. Numa sociedade em que predomina o modo de produção capitalista, as mercadorias são produzidas fundamentalmente para ser trocadas e gerar lucro, e a efetuação desse fim depende mais dos produtos que dos produtores. Não são as pessoas que escolhem livremente ir ao mercado trocar coisas; ao invés, é como se as coisas, à maneira de donos que passeiam com seus cães, conduzissem as pessoas para, relacionando-se com outras pessoas, intercambiarem e assim realizarem a sinapse básica do capitalismo que é o ato de compra e venda com geração de lucro. Nessas circunstâncias, é óbvio que uma mercadoria pode valer mais que outra, ou tecnicamente ter um valor de troca maior que o de outra, conforme o valor de uso que lhe é atribuído — quem gosta de peixe atribui um valor maior ao linguado que ao frango, por exemplo. Ora, dado que sob o capitalismo as personalidades se definem mormente pelas relações de troca, a superioridade de uma mercadoria em seu valor de troca perante outras mercadorias introduz-se na “personalidade” da própria coisa; é como se esta, por natureza, merecesse mais que outras coisas e, no limite, mais até que a pessoa mesma que dela precisa.
Eis o sentido do insólito reclame. Na vida capitalista, a gente olha o motorista e o carro, e não sabe quem merece e quem precisa; confundem-se, a ponto de a máquina merecer e o humano precisar, como se isso fosse determinado pela natureza das coisas — a naturalização das relações históricas é um dos componentes básicos do que Marx denominou fetiche. Tudo está invertido? Decerto, e tal inversão é a feitiçaria que constitui a lógica do sistema.
Nessa quadra de mistérios e feitiços, um carro talvez precise e mereça muito; o motorista e seus convidados no banco traseiro, idem; os brasileiros até precisam de ferrovias, mas alguém um dia decidiu que não as mereciam; o único que certamente não merece nem precisa de nada, estando obrigado a tudo, é o carona que não sabe dirigir, o avatar do mais indiscutível demérito humano. ■
Homero Santiago é doutor em Filosofia e professor livre-docente de História da Filosofia Moderna da Universidade de São Paulo.
Diagramação | RONALDO CAMPOS
Fotos | Unsplash