Texto | ARTHUR MEUCCI e FLÁVIO TONNETTI

Podemos vender tudo, até mesmo o desejo. E podemos consumir o outro e pagar pelos seus corpos: o mundo nos dá a possibilidade de negociar nossos desejos.
O desejo é inserido então na lógica de mercado, torna-se motivador de uma economia. Mas mais do que entender que podemos satisfazer nossas pulsões através desse escambo de afetos, nesse mercado táctil, em que se encontram línguas e dedos — e muito mais — é necessário entender que o próprio desejo passa a figurar como objeto de troca, como mercadoria negociável.

Tem mais quem tem desejo. Não desejar passa a significar a pobreza do corpo, e passamos a barganhar não apenas os objetos de nosso desejo, mas o próprio desejo em si mesmo. Corremos ao psicólogo, à farmácia, ao templo zen: queremos reaver o cálice perdido, a fonte do desejo. Perdidos no mercado dos afetos, nos sentimos inapropriados se não desejamos. No mundo da valorização da juventude e dos corpos atléticos, desejar é imperativo. E como desejar é imperativo, ser desejado é uma obrigação. Corremos então às mesas de cirurgia e ao esteticista. Aquecemos o novo mercado da imaginação. Além de fabricar o desejo em nós mesmos, queremos fabricar o desejo no outro, já que sem ele somos pobres: miseráveis no mercado da vida.


Miniensaios de Filosofia, volume: Desejo, Vontade & Racionalidade, cap. XVI, editora Vozes, 2013.

Arthur Meucci
Bacharel, Licenciado Pleno e mestre em Filosofia pela Universidade de São Paulo, doutor em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. Extensão em Filosofia do Cinema pelo COGEAE/PUC. Possuí formação em Psicanálise; Professor Adjunto da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Viçosa (UFV).

Flávio Tonnetti
Bacharel e mestre em Filosofia pela USP, doutor em Educação pela mesma instituição, com tese sobre educação e tecnologia.
Professor da Universidade Federal de Viçosa.
contato: [email protected]

Diagramação | RONALDO CAMPOS
Foto | Tutz Dias/Unsplash

Share: