Por Marcella Erédia e Natasha Lima

O cinema se popularizou por sua capacidade de levar entretenimento a públicos de todas as idades, mas rapidamente se tornou também um importante espaço de reflexão.

Nesta edição, o Cine Sofá traz dois filmes nacionais que foram reconhecidos (dentro e fora do País) por sua narrativa carregada de questões políticas, econômicas e sociais.
Ambos contam histórias que fazem parte do nosso dia a dia, mas que fomos condicionados a ignorar. São realidades e problemas do Brasil que precisam ser expostos para que, finalmente, possam ser enfrentados.

Última Parada 174 (2008)

Dirigido por Bruno Barreto
Elenco: Michel Gomes (Sandro), Gabriela Luiz (Soninha), Cris Vianna (Marisa), André Ramiro (Souza) e Marcello Melo Jr (Alessandro)
Disponível on-line em: YouTube

O filme é uma ficção baseada na história de Sandro Barbosa do Nascimento, autor do sequestro do ônibus 174, e no documentário de José Padilha que trata do mesmo evento.

Para quem não se lembra, o crime aconteceu na Zona Sul do Rio de Janeiro e foi transmitido ao vivo por diversas emissoras de televisão. Seu desfecho trágico foi assistido por milhões de brasileiros e ficou conhecido como uma das operações policiais mais desastrosas da história do País.

Apesar de retratar um pouco do drama vivido durante as 5 horas de sequestro, o objetivo do filme não é reconstituir os fatos ocorridos na tarde de 12 de junho de 2000. A proposta do diretor foi apresentar a cadeia de eventos que foi capaz de transformar um menino órfão em um criminoso homicida.

Por meio das desventuras da vida de Sandro, somos convidados a refletir sobre os impactos da exclusão social, da pobreza, da violência, do racismo e do desamparo estatal na vida de jovens em situação de risco.

A narrativa mostra que Sandro fez escolhas erradas por toda a sua trajetória, mas que, infelizmente, muitas delas pareciam ser as únicas possíveis dentro de seu universo tão limitado e violento.

Apesar de ter sido lançado em 2008, o filme permanece atual e nos convida a debater sobre o que é possível fazer para mudar essa realidade. Afinal, antes de construir novas cadeias, é preciso investir em meios de evitar que jovens como Sandro entrem para a criminalidade.

Que Horas Ela Volta? (2015)

Dirigido por Anna Muylaert
Elenco: Regina Casé (Val), Camila Márdila (Jéssica), Karine Teles (Bárbara), Lourenço Mutarelli (José Carlos) e Michel Joelsas (Fabinho)
Disponível on-line em: YouTube

Que Horas Ela Volta?, dirigido por Anna Muylaert e estrelado por Regina Casé, conta a história de Val, uma empregada doméstica que nasceu em Pernambuco e mora há anos na casa dos patrões (Bárbara e José Carlos) em São Paulo, na esperança de conseguir melhores condições de vida.

A história que, a princípio, tem um enredo simples e fala do cotidiano de muitas famílias brasileiras se mostra, no decorrer da trama, capaz de trazer importantes reflexões sobre a segregação social no Brasil e como a relação entre a classe média e classe baixa é cercada de problemas estruturais tão intrínsecos que nos fazem naturalizar situações como as que ocorrem no filme.

O elemento subversivo fica por conta da personagem Jéssica, filha de Val, que, após cerca de dez anos longe da mãe, vai a São Paulo para se preparar para o vestibular e, consequentemente, também passa a morar na casa da família.

Jéssica representa uma quebra do status quo desde sua chegada. Além de questionar o modo como sua mãe é tratada na casa dos patrões, ela deixa claro que também tem lugar na mesa — na piscina, na universidade, na sociedade.

A história de Val é a história de muitas brasileiras e — não só por isso — o filme cumpre bem a função de envolver o espectador. É o relato da empregada doméstica que, na busca por melhores condições, deixou a própria filha para cuidar do filho de outra pessoa. Dos patrões que a tratam (quase) como da família, mas não compartilham a mesma refeição. Do filho da patroa que trata a babá como sua segunda mãe, mas não lida bem com o fato de ver sua filha disputando a mesma vaga que ele na universidade.

Que Horas Ela Volta? é um filme que consegue, em sua simplicidade, ser grande. Ele toca em feridas importantes com bom humor e mostra quanto ainda reproduzimos as mesmas relações de poder e servidão de séculos atrás e que, nesse sistema, seguimos reafirmando de forma absurdamente quase “natural” o lugar que cada um pode ocupar na sociedade.

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