Por Arthur Meucci e Flávio Tonnetti

Não fosse o medo, estaríamos aniquilados como espécie. Parceiro das horas mais difíceis, ele nos ajuda na luta pela sobrevivência. Herança genética de nossos antepassados, o medo ajudou a nos manter de pé para criar um futuro em que estejamos sãos e salvos. Sem medo não fugiríamos do perigo, não buscaríamos abrigos nas cavernas e não construiríamos casas. Sem medo não interpretaríamos os raios no céu, as estações do ano e as leis do universo. Não inventaríamos a filosofia e nem a ciência. Não enxergaríamos a vida como uma incessante luta contra a morte.

Sem a sensação de perigo que o medo nos traz, lançaríamos a nós mesmos uma correnteza sem fim e enfrentaríamos o perigo impossível: a fera enorme ou as profundezas do abismo. O medo é nossa segurança. É, portanto, nosso alidado natural na luta pela vida.

Nesse sentido, aquilo que chamamos vulgarmente de covardia não é fraqueza individual, mas características da espécie. Afinal, é melhor fugir e permanecer vivo do que ser exterminado por aquilo que nos ameaça. Tais considerações talvez nos indiquem que o nosso principal objetivo como espécie humana é proteger nossa integridade física – e que vamos expandindo essa proteção conforme vamos constituindo com os outros uma vida coletiva. O medo constitutivo da espécie nos conduz, também naturalmente, à instituição de uma segurança que possa ser compartilhada: a invenção da sociedade.


Miniensaios de Filosofia, volume: Ética, Medo & Esperança, cap.XVII, editora Vozes, 2013.

Arthur Meucci
Bacharel, Licenciado Pleno e mestre em Filosofia pela Universidade de São Paulo, doutor em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. Extensão em Filosofia do Cinema pelo COGEAE/PUC. Possuí formação em Psicanálise; Professor Adjunto da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Viçosa (UFV).

Flávio Tonnetti
Bacharel e mestre em Filosofia pela USP, doutor em Educação pela mesma instituição, com tese sobre educação e tecnologia.
Professor da Universidade Federal de Viçosa.
contato: [email protected]

Foto (capa) de Ryoji Iwata/Unsplash
Foto de Eduardo Sánchez/Unsplash
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