Por Marcella Erédia e Natasha Lima

O cinema sempre foi uma importante ferramenta de reflexão sobre a conduta humana. Por meio dos filmes, temos acesso a uma infinidade de histórias e personagens que nos permitem analisar a forma como entendemos e enfrentamos o mundo.

Nesta edição da revista Inspire-C, iniciamos uma nova coluna dedicada à Sétima Arte, começando por dois filmes cujos temas centrais percorrem grandes dilemas éticos: A Escolha de Sofia, que traz à luz o conflito de uma mãe diante de uma escolha que nos parece absurda e impossível de se fazer, e Os Suspeitos, que apresenta a história de um pai em uma situação extrema de desespero na busca por justiça, custe o que custar.

A Escolha de Sofia (1983)

Dirigido por Alan J. Pakula
Elenco: Meryl Streep (Sofia Zawistowski), Kevin Kline (Nathan Landau) e Peter MacNicol (Stingo).
Disponível para aluguel em: Google Play Filmes, YouTube e iTunes Store.

O filme conta a história de Sofia, uma mulher polaca sobrevivente do holocausto que, após o fim da guerra, se estabeleceu em uma pensão em Nova York. Ela tem um relacionamento amoroso com Nathan, um judeu norte-americano que conheceu assim que chegou ao país e por quem ela desenvolve fortes laços afetivos.

O excêntrico casal vivia em um ciclo de brigas e reconciliações. Durante uma das noites de conflito, eles conhecem Stingo, um aspirante a escritor que acabara de se mudar para o mesmo prédio. Os três se tornam muito amigos e passam a estar sempre juntos, como uma família.

Sofia e Stingo ficam especialmente próximos. Toda vez que Nathan enlouquece de ciúmes e vai embora, é o escritor quem dá apoio à amiga. Eles têm longas conversas e, nesses momentos, Sofia acaba lhe confidenciando histórias de seu passado que ainda a atormentavam profundamente.

Apesar de as três personagens serem carregadas de diferentes e importantes temáticas, o enredo do filme é construído para nos levar até um dilema ético. A fatídica escolha a que Sofia foi submetida quando foi presa pelos nazistas.

A personagem conta que, quando chegou ao campo de concentração, um oficial alemão lhe ofereceu a chance de salvar um de seus dois filhos, sabendo que o outro, inevitavelmente, morreria. Se ela se negasse a escolher, os dois seriam condenados à morte. Ela não tinha outra saída.

O filme tem o poder de nos colocar em um lugar desconfortável. De nos fazer passar por Sofia e pensar em nossos entes queridos. “Qual o valor da vida humana?”, “A morte pode ser justificável?”, são perguntas inevitáveis.

Sem dar spoilers sobre a decisão da personagem, é preciso dizer que a escolha de Sofia é, na verdade, uma escolha impossível, uma armadilha. Afinal, escolher entre um filho ou outro é se tornar cúmplice de quem fez a pergunta, o verdadeiro detentor do poder de escolha.

Ou seja, se Sofia se negar a escolher, o oficial matará as duas crianças. Se ela sucumbir e entregar um dos filhos, ela se torna, também, responsável por aquela morte.

O problema é que a nossa sociedade se acostumou a naturalizar as “escolhas de Sofia” e, em vez de questionar quem cria as soluções e se posicionar contra o sacrifício de uns para o benefício de outros, torna-se cúmplice de determinados posicionamentos e políticas.

Por isso o filme ainda é atual e merece ser visto, ou revisto, por todos aqueles dispostos a realizar um verdadeiro exercício filosófico.

Os Suspeitos (2013)

Dirigido por Denis Villeneuve
Elenco: Hugh Jackman (Keller Dover), Jake Gyllenhaal (Detetive Loki), Terrence Howard (Franklin Birch), Viola Davis (Nancy Birch), Melissa Leo (Holly Jones)
Disponível para aluguel em: GooglePlay Filmes

O filme conta a história de Keller Dover, um homem dedicado e religioso que herda do pai o hábito de se prevenir e proteger sua família em situações de possíveis desastres — chegando a estocar suprimentos e materiais no porão de casa —, tendo de lidar com algo desesperador: o desaparecimento da sua filha mais nova, Anna, de apenas 6 anos de idade.

Em uma visita da família Dover à casa de Franklin e Nancy Birch, seus grandes amigos, sem que as famílias percebam, Anna e Joy (filha dos Birch) desaparecem. A partir daí, a polícia é acionada e dá-se início a uma busca pelo paradeiro das meninas, liderada pelo detetive Loki, conhecido por resolver todos os casos em que se envolveu.

Assim que a investigação começa, surge o primeiro e maior suspeito pelo crime: Alex, um homem solitário e com problemas mentais, com um QI considerado de uma criança de 10 anos de idade. Conforme a pressão e a luta contra o tempo aumentam, devido à insuficiência de provas e à dificuldade em enquadrá-lo como sequestrador, Alex é liberado pela polícia após ter permanecido apenas 48 horas preso.

Indignado e acreditando que a polícia falhou, Dover decide fazer justiça com as próprias mãos. É nesse momento que a história toma um ar ainda mais angustiante e faz o telespectador refém das decisões da personagem.

O suspense dirigido por Denis Villeneuve tem como meta principal prender a nossa atenção e nos envolver no que podemos considerar o maior dilema da história: até onde você iria para conseguir fazer justiça? Se a lei a que estamos submetidos enquanto sociedade supostamente falha, é correto ou, ao menos, justificável, fazer justiça com as próprias mãos? E ainda, se a vida nada mais é que uma consequência das nossas escolhas, quem somos nós ao tomar partido em uma situação como essa?

É claro que o enredo traz à luz uma situação complexa, pois trabalha com temas por si só sensíveis e difíceis de assimilar: o sequestro de crianças, a possível perda de um filho, o desespero de um pai na busca por respostas. Mas é nesse sentido que o público assume um importante papel e é levantado um segundo ponto. Afinal, existem dois pesos e duas medidas para cada situação? Se sim, quem pode assumir essa decisão?

Mais que uma história cheia de simbolismos e conexões, o filme nos remete às diversas situações a que somos expostos diariamente e que nos fazem cada vez mais juízes de conduta e supostos seres dotados de algum poder de julgamento.

Os Suspeitos é um daqueles achados que, apesar de longo, cumpre bem o seu papel: prende a atenção até o último segundo e ainda conta com um plot twist no final que pode fazer você se perguntar se esteve do lado “certo” o tempo todo e se ele, de fato, existe.

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