Texto | GERSON TIBÚRCIO

Título original | A Escultura da Própria Existência: a Automelhoria e a sua Razão de Ser

Na velocidade do ecossistema corporativo atual, a palavra “melhoria” costuma vir acompanhada de planilhas de metas, cortes de custos e pressões por entregas imediatas. No entanto, focar apenas nos indicadores finais significa inverter a lógica natural do desenvolvimento. As organizações são, essencialmente, compostas por pessoas. Portanto, nenhuma engrenagem corporativa evolui de verdade se o ser humano por trás dela permanecer estático.

Diferentemente dos animais, que operam majoritariamente pelos instintos, o ser humano é uma obra aberta. Diante da ausência de um roteiro biológico rígido, nós precisamos inventar, improvisar e criar nossa própria trajetória. A automelhoria é, portanto, a nossa razão de ser: o ato consciente de esculpir a estátua da nossa própria existência.

Para transformar esse conceito abstrato em prática diária, é necessário abandonar as fórmulas mágicas de produtividade e focar na microética do cotidiano através de duas frentes fundamentais: a forma como governamos nosso tempo e a maneira como nos relacionamos com o outro no ambiente de trabalho.

Melhorar a gestão do tempo não significa produzir mais em menos tempo — o conceito mecânico de eficiência —, mas sim garantir que o tempo vivido tenha significado, o conceito filosófico de eficácia existencial. Imagine que sua rotina começa às 09:00 e, rotineiramente, você é engolido por urgências alheias até o meio-dia. A automelhoria aqui exige o desenho de um timeboxing inegociável: das 09:00 às 09:45, mantenha o software de e-mails e o chat corporativo fechados, e dedique esses 45 minutos exclusivamente à leitura de relatórios estratégicos ou ao planejamento do direcionamento do trimestre. Esse microhábito inverte a lógica do estresse — você passa a governar o seu dia antes que as demandas externas governem você. Na mesma linha, uma vez por semana vale abrir a agenda e analisar as reuniões recorrentes, identificando aquela discussão de alinhamento de uma hora que sempre drena a energia da equipe. Propor ao time substituir essa interação por um documento compartilhado assíncrono, no qual cada um gasta cinco minutos escrevendo seu status, libera 55 minutos restantes — e isso não é apenas otimizar processos, é recuperar tempo vital para focar em estratégias humanas e criativas.

A verdadeira liderança não se exerce pelo poder do cargo, mas pela autoridade moral e pela capacidade de gerar espaço para o crescimento do outro. A automelhoria do líder reflete-se diretamente na emancipação do liderado. Imagine que um liderado cometeu um erro crítico de digitação em um relatório enviado para a diretoria: em vez de uma abordagem punitiva ou de dizer “isso está errado, refaça imediatamente”, o líder aplica a melhoria contínua comportamental através de perguntas maiêuticas na reunião individual — “qual etapa da nossa checagem falhou para que esse dado passasse? Que nova barreira ou padrão podemos desenhar juntos para garantir que você se sinta seguro na próxima entrega?” — o que transmuta o erro em uma oportunidade real de aprendizado estruturado. Da mesma forma, durante as reuniões individuais, quando o liderado demonstrar sinais claros de estresse ou sobrecarga, o líder deve aplicar o silêncio intencional: fechar o notebook, mudar o foco dos olhos do monitor para a pessoa e dedicar os primeiros dez minutos apenas a ouvir a percepção do colaborador sobre os prazos, sem interrompê-lo com soluções imediatas. Compreender a dor de quem executa antes de cobrar o indicador técnico humaniza o ambiente e solidifica a confiança mútua.

Dentro desse ecossistema de liderança, a automelhoria exige também a substituição de julgamentos moralistas por uma linguagem de conexão baseada na Comunicação Não Violenta (CNV), desenvolvida por Marshall Rosenberg. Em momentos de alta pressão, o líder que busca o aprimoramento ético abdica de frases acusatórias e reativas — como “você é sempre desatento com prazos” — e adota uma estrutura baseada em quatro pilares fundamentais: observação de fatos, expressão de sentimentos, identificação de necessidades corporativas e formulação de pedidos claros e mensuráveis. Em vez de confrontar o liderado com agressividade passiva pela entrega atrasada, o líder pode reformular sua fala assim: “notei que o relatório de indicadores foi entregue dois dias após a data limite (observação). Eu me sinto preocupado (sentimento), pois necessitamos desses dados para alinhar o planejamento com os investidores (necessidade). Podemos combinar que, se houver um novo obstáculo na tarefa, você me avisará com 24 horas de antecedência para ajustarmos o fluxo (pedido)?”. Esse refinamento na comunicação transforma o embate em pacto, eliminando os ruídos que geram ressentimento defensivo nas equipes.

O erro não deve ser visto como o oposto do sucesso, mas sim como a matéria-prima indispensável da evolução. Tanto líderes quanto liderados precisam de um freio de segurança emocional no cotidiano. Ao receber um e-mail ríspido ou um feedback atravessado que desperte irritação imediata, vale aplicar esse freio: escrever toda a resposta defensiva em um bloco de notas separado — nunca na caixa de texto do e-mail com o remetente preenchido —, fechar a janela, respirar fundo e aguardar quinze minutos. Depois, voltar ao texto e remover todas as palavras reativas, mantendo apenas os fatos técnicos e o respeito profissional antes de enviar.

Esses pilares — a gestão do tempo, a relação entre líder e liderado, a comunicação não violenta e o equilíbrio emocional — se reforçam mutuamente. A blindagem dos primeiros 45 minutos do dia para foco estratégico gera autonomia existencial e reduz a reatividade diária; o diálogo estruturado através de perguntas e escuta sem telas desenvolve pessoas e cria lideranças seguras; a substituição de julgamentos por fatos, sentimentos, necessidades e pedidos resolve conflitos sem desgaste ético ou emocional; e o uso do bloco de notas para filtrar respostas a críticas ácidas garante a governança de si e a preservação do clima ético na equipe.

A automelhoria não serve para transformar o indivíduo em uma máquina de trabalho perfeitamente otimizada. Sua verdadeira razão de ser é expandir os limites da nossa liberdade, da nossa consciência e da nossa capacidade de gerar impactos positivos ao seu redor. Para mim, o ser humano excelente não é aquele que alcançou o topo de uma carreira de forma mecânica e fria, mas aquele que, ciente de suas imperfeições, escolhe ativamente se aprimorar um pouco a cada dia, seja organizando melhor seu tempo, seja comunicando-se com empatia, seja estendendo a mão para o crescimento de seus liderados. Afinal, as estruturas corporativas passam e os mercados oscilam, mas a obra de arte que esculpimos em nossa própria existência é o único legado real que deixamos para o mundo.


Referências
ROSENBERG, Marshall B. Comunicação Não-Violenta: Técnicas para aprimorar relacionamentos pessoais e profissionais. Editora Agora, 2006.
SINEK, Simon. Comece pelo porquê: Como grandes líderes inspiram pessoas e equipes a agir. Editora Sextante, 2018.
WOMACK, James P.; JONES, Daniel T. A Mentalidade Enxuta nas Empresas: Elimine o Desperdício e Crie Riqueza. Editora Campus, 2004.

Diagramação | RONALDO CAMPOS
Foto | Elijah Crouch/Unsplash (capa) | Vitaly Gariev/Unsplash

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