Texto | HOMERO SANTIAGO

Desde julho de 2021, ainda no curso da terrível pandemia que todos enfrentamos e hoje lembramos com dissabor, comecei a escrever esta coluna mensal na revista Inspire-C, confiando no seu projeto e na certeza de que a filosofia tem a contribuir, de forma modesta mas importante, com a nossa compreensão do mundo. Desde então, foi um longo trajeto que já dura mais de cinco anos e que eu arriscaria julgar exitoso. Menos por mérito meu do que pela colaboração que se firmou e alcançou uma consistência notável. Pelo sim, pelo não, foram cinco anos, o que tem um significado que está longe de ser desprezível.

Recordo isso porque desta vez, quebrando um pouco a tradição estabelecida ao longo dos anos, em lugar das crônicas que mensalmente venho propondo, convido-os a conhecer um livro que eu mesmo acabo de publicar pela editora paulistana Politeia. Tomo a liberdade de fazê-lo porque acredito que o espaço oferecido pela Inspire-C está aberto a manifestações desse tipo, além do que, como é muito importante salientar, alguns dos textos do volume foram primeiramente aqui publicados. O nome da obra é Sobrosso: nos tempos do bolsonarismo, e para apresentá-lo deixo aqui um trecho do prefácio, adaptado à circunstância e que é mais ou menos aquele que aparece nas orelhas do livro. Espero que a proposta desperte o interesse dos leitores e das leitoras.

De alguma maneira, Sobrosso: nos tempos do bolsonarismo começou a ser concebido no domingo de 17 de abril de 2016, quando o Congresso Nacional julgava o afastamento de Dilma Rousseff e o então deputado federal Jair Bolsonaro, ao votar, pronunciou um breve discurso que era mais ou menos assim:

“Perderam em 1964. Perderam agora em 2016. Pela família e pela inocência das crianças em sala de aula, que o PT nunca teve… Contra o comunismo, pela nossa liberdade, contra a Folha de S.Paulo, pela memória do Cel. Carlos Alberto Brilhante Ustra, o pavor de Dilma Rousseff!”

Tratava-se de um discurso que, entrelaçando o passado ditatorial e o presente democrático, culminava no louvor à memória de um famoso torcionário. A partir dali, ao menos no plano simbólico, estava aberto o caminho para os tempos bolsonaristas e as múltiplas transformações que se operaram no interior da sociedade brasileira a fim de que o passado ditatorial adormecido, mas nunca destruído, acordasse e voltasse à tona: o nosso autoritarismo.

Daí o sobrosso que intitula o livro. Assim como sobre os ossos das bestas às vezes forma-se uma ferida (“sobreosso”) que molesta e ainda assim elas precisam continuar trabalhando e seguindo a vida normal, assim também os brasileiros tivemos de enfrentar, de bom ou de mau grado, os anos bolsonaristas, tanto mais complicados em razão da significativa peste que foi a pandemia de Covid-19, no curso da qual mais de 700 mil compatriotas perderam as suas vidas, nem sempre de forma inevitável.

Os materiais reunidos no volume em questão constituem uma tentativa de, simultaneamente, servir de narrativa da experiência desses anos e de reflexão sobre como o autoritarismo brasileiro enraíza-se em nossa formação sócio-político-cultural repetindo-se periodicamente sob variadas e renovadas formas. O bolsonarismo — termo aqui preferido ao usitado “fascismo” e que deve ser entendido para lá do personagem que lhe empresta o nome — é uma expressão propriamente brasileira do ideal autoritário que nos últimos anos vem tomando a dianteira no cenário político mundial. Por conseguinte, apenas a atenção a certos detalhes particulares de nossa constituição como nação (da doutrina de segurança nacional à programada e violenta marginalização de parcelas da população) poderia dar conta desse fenômeno e oferecer-nos meios de resistência no interior das instituições democráticas que se fundaram com a Constituição Federal de 1988, a assim denominada “constituição cidadã”.

Os textos do livro se distribuem em quatro seções:

1. “A tentação autoritária”: a tentativa de captura de certos aspectos essenciais do bolsonarismo a partir do mencionado discurso de seu titular em abril de 2016 na sessão parlamentar que afastou Dilma, bem como sua relação com a pandemia;

2. “Em busca de compreensão”: a discussão de marcos teóricos importantes para a apreensão do autoritarismo brasileiro, partindo sobretudo das obras da filósofa Marilena Chaui;

3. “Notas da travessia”: crônicas e textos de intervenção que buscam registrar e, na medida do possível, elucidar no cotidiano a experiência conjunta da pandemia e do bolsonarismo;

4. “Um alento”: o elogio da contribuição teórica do nosso Sistema Único de Saúde, o famoso SUS, para a construção de uma sociedade democrática que possa enfrentar o passado e não mais repetir as próprias raízes autoritárias.


Homero Santiago é doutor em Filosofia e professor livre-docente de História da Filosofia Moderna da Universidade de São Paulo.

Diagramação | RONALDO CAMPOS
Foto | Divulgação

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