Texto | ANDERSON BORGES COSTA

Como é a relação com seus pais? Seu pai e sua mãe são presentes em sua vida? Eles acompanham o seu crescimento, as suas transformações, as suas angústias? São pra você um porto seguro? Dão-lhe apoio emocional e financeiro? Você se sente à vontade para falar com eles sobre tudo? Se respondeu não a pelo menos uma dessas questões, você já tem algo em comum com Júlia, a protagonista do romance Pequena coreografia do adeus, de Aline Bei.

O título deste livro é poético, é lírico, é belo. E a beleza das palavras, que se distribuem de forma harmônica pelas páginas, que dançam enquanto narram o drama de Júlia, são prosa e são poesia; são amor e são ódio; são perigo e ameaça; são dor e sofrimento. Júlia cresce em uma casa onde o pai e a mãe afirmam gestos diários que deformam a formação dela: de criança a adolescente, de adolescente a mulher.

Júlia é a narradora que traduz o ambiente hostil que a cerca com passagens claras, que levam o leitor a sentar-se ao seu lado na tentativa de abraçar uma voz que dança a dor do desamparo familiar em passagens como esta: “As brigas dos meus pais foram virando o chão onde nós pisávamos. O silêncio da casa era sempre uma fermentação para o que viria e até mais angustiante do que os gritos quando tudo estourava”.

Júlia é a única filha de um casamento errático. O pai, nada interessado na mãe, pouco interessado na filha, sai de casa em busca de dias mais livres. A mãe, abandonada pelo marido, sente-se só e revoltada com a vida. Júlia é tratada com violência pela mãe e com indiferença pelo pai. E, entre um e outro adeus, tenta dançar sozinha a sua própria coreografia desafinada.

Aline Bei, jovem revelação na literatura brasileira, constrói, neste Pequena coreografia do adeus, uma jornada que falará de perto com muitos de nós. 
Boas leituras!

Pequena coreografia do adeus, de Aline Bei
Editora: Companhia das Letras

 

 

 

 


Anderson Borges Costa
Formado e pós-graduado em Letras (Português/Inglês/Alemão) pela Universidade de São Paulo. Professor de Português e Literatura na Escola Internacional St. Nicholas. Escritor, autor dos romances Professoras, Rua Direita e Avenida Paulista, 22, do livro de contos O livro que não escrevi e de peças teatrais.

Diagramação | RONALDO CAMPOS
Fotos (capa e mídia): Divulgação | Companhia das Letras

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