Texto | ANDERSON BORGES COSTA

Você acha que o Brasil seria um país melhor se, em vez de uma república, fôssemos uma monarquia? Se, em vez de presidente, tivéssemos um rei? A Inglaterra é a mais famosa monarquia no mundo, com sua família real, nobre e de sangue azul. Dela se aproximam apenas pessoas gabaritadas e de origem tradicional. No entanto, há um sujeito de origem extremamente pobre e rude que se tornou o maior conselheiro do rei Henrique VIII, no século 16, e desvendou caminhos para que o rei se separasse da primeira esposa e se casasse com uma nova rainha. Foi esse sujeito misterioso que conduziu o país europeu a romper com a Igreja Católica romana e a fundar a Igreja Anglicana. Apesar de tanta importância, pouco se sabe sobre este homem, chamado Thomas Cromwell. Ou melhor: pouco se sabia, até a publicação do romance Wolf Hall, da premiada autora inglesa Hilary Mantel, que jogou luz na vida de alguém que não deixou cartas nem diários, mas que deixou uma marca eterna na História.

Hilary Mantel não é uma historiadora, é uma ficcionista. E é com seu talento para criar histórias que ela narra a História. Em Wolf Hall, o protagonista é Thomas Cromwell, um homem humilde, de origem bem simples, que se tornou o braço direito do rei Henrique VIII e conseguiu fazer o que parecia impossível. Com sua inteligência incomum, Thomas Cromwell se forma em direito e aprende idiomas. É dono de uma cultura eclética, capaz de citar Platão de trás para a frente; conhece a poesia de sua época e consegue recitá-la em italiano; é um trabalhador incansável. Estrategista talentoso, Cromwell encontra brechas para que Henrique VIII se divorcie da rainha que não lhe deu um herdeiro para se casar com Ana Bolena, com a finalidade de, finalmente, conceber o futuro príncipe. E, ao contrariar os princípios da Igreja romana e do Papa, Cromwell leva o rei Henrique VIII a fundar o Anglicanismo e garantir a supremacia inglesa perante Deus.

Thomas Cromwell é um personagem que passou séculos na escuridão da História. Com Wolf Hall, você verá que um homem de origem pobre precisa estar sempre atento ao frequentar o mesmo palácio que o rei. Se não, corre o risco de receber uma lâmina no pescoço. Com um enredo que lembra muito as histórias de William Shakespeare, Wolf Hall nos coloca dentro da suja e corrupta sala onde os destinos de um povo são decididos. E isso deixa o protagonista sempre a um passo da tragédia. Este romance exige fôlego. Boas leituras!

Wolf Hall, de Hilary Mantel
Tradução de Heloísa Mourão
Editora Todavia

 

 

 


Anderson Borges Costa
Formado e pós-graduado em Letras (Português/Inglês/Alemão) pela Universidade de São Paulo. Professor de Português e Literatura na Escola Internacional St. Nicholas. Escritor, autor dos romances Professoras, Rua Direita e Avenida Paulista, 22, do livro de contos O livro que não escrevi e de peças teatrais.

Diagramação | RONALDO CAMPOS
Foto capa | Henrique VIII, Retrato atribuído a Hans Holbein, O Jovem.

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