Texto | HOMERO SANTIAGO

Filósofo, Gilles Deleuze (1925-1995) nunca cessou de dedicar uma atenção especial à literatura. Pode-se até ir além: ele tomava a consideração da literatura como uma tarefa fundamental do seu afazer filosófico, na medida em que a arte literária lhe fornecia algo precioso que ele denominava “clínica”. Entendamos. Ao lado da teoria, um psicanalista ou um médico geralmente mantêm uma clínica que lhes subsidia o pensamento com casos que enriquecem a sua experiência e testam o seu saber. E o filósofo, como fica? Pois então, simplificando um pouco mas sem trair o seu espírito profundo, o intento deleuziano era buscar na literatura uma espécie de clínica para a filosofia: realidades desconhecidas, afetos e experiências inéditos, modos de vida alternativos que a filosofia como tal, uma disciplina teórica, jamais poderia propor. A literatura torna-se então uma forma de pensar a ser levada tão a sério quanto a ciência e a própria filosofia.
Para elucidar essa aliança arquitetada por Deleuze, tomemos o exemplo de dois escritores de grande afeição sua: o francês Marquês de Sade (1740-1814) e o austríaco Leopold von Sacher-Masoch (1836-1896), nomes tanto mais significativos porque foram apropriados pela psiquiatria e pela psicanálise para designar duas “perversões básicas” de que todo mundo certamente já ouviu falar, a saber, o sadismo e o masoquismo.
Em virtude dessa situação particular, argumenta Deleuze, tais autores constituem “prodigiosos exemplos de eficácia literária”. Normalmente são doentes típicos e sobretudo médicos que emprestam os seus nomes a doenças; daí falarmos, por exemplo, em “doença de Chagas”, em referência ao epidemiologista brasileiro que primeiramente descreveu a enfermidade. Todavia, no caso em tela, foram literatos que deram seus nomes a expressões do comportamento e da psique humana que muitos consideraram desviantes. Ora, seriam doentes tanto Sade quanto Masoch? Não. De jeito nenhum o termo “doença” se aplica aqui, assevera Deleuze. O que descobrimos nos escritos desses autores são “quadros inigualáveis de sintomas e signos” que manifestam certas condutas que, por sua vez, configuram modos de vida peculiares. Eles foram, sim, defende o filósofo, grandes sintomatologistas. Em suas obras, souberam reunir e descrever sintomas, isto é, efeitos, comportamentos, hábitos, falas, pensamentos, sob personagens que agiam de um modo peculiar, exprimindo cada um uma essência específica, inaudita e até então desconhecida. Foi assim que criaram para nós a possibilidade de, a partir de suas obras e saltando dos livros para o mundo, falar de pessoas “sádicas” e de pessoas “masoquistas”. Não é pouca coisa. Sade e Masoch não foram nem doentes nem médicos, no sentido ordinário dessas palavras. Conforme Deleuze, foram “grandes antropólogos”, desvendando a alma humana, e “grandes artistas”, plasmando aspectos da realidade que ainda vivenciamos.
O êxito e a originalidade desses escritores e de seus textos fundamentais residem em nos terem despertado para coisas inéditas, forjando “novos modos de sentir e de pensar”. Reflitamos: poderia haver o sadismo antes de Sade? O masoquismo sem a obra de Masoch? Ou, ao invés, foram justamente eles que nos ensinaram a sentir e a pensar sadicamente, masoquisticamente? Ao descrever tais atitudes em essência, esses autores constituíram e deram nomes a novas modalidades de nossa experiência do real; dessa maneira — e isso é bastante admirável —, foram capazes de ampliar o campo possível da experiência humana. Antes de Sade, por exemplo, é duvidoso que alguém, rigorosamente falando, pudesse ser sádico; depois, qualquer um o pode, pois o nome, a descrição e a compreensão que a noção envolve entraram definitivamente para o campo da cultura e passaram a estar disponíveis em nosso horizonte.
Não devem pairar dúvidas, pois, sobre a eficácia da literatura. E é por isso que, sempre na esteira de Deleuze, ela está apta a fornecer um “ponto de vista situado fora da clínica” médica (não tratamos de doentes ou médicos, mas de artistas) que pode, se bem trabalhado, produzir efeitos diretos nessa espécie de “clínica” filosófica, e de profundas ressonâncias éticas, que o filósofo tem em vista e à qual toca ponderar e avaliar a nós mesmos e às maneiras diversas como vivemos a nossa vida.
Para que serve a literatura? Desse ponto de vista e para resumir, despertar-nos para novas experiências, para o que não enxergaríamos sem as obras dos grandes escritores que nos descortinam a realidade. Convençamo-nos de uma vez por todas: se a literatura fosse apenas ilustração do que já sabemos, se fosse só a transcrição fiel das vivências que já tivemos, ela teria apenas o valor de registro de coisas passadas fotograficamente capturadas. Ela serviria para disso nos recordar; só que não teria nenhuma eficácia na constituição do que seja o real para nós e daquilo que nós mesmos podemos nos tornar ao experimentá-lo de múltiplas maneiras. A grande literatura não reflete o mundo, ela nos ensina a entendê-lo e vivê-lo.■
Homero Santiago é doutor em Filosofia e professor livre-docente de História da Filosofia Moderna da Universidade de São Paulo.
Diagramação | RONALDO CAMPOS
Foto capa | Arquivo pessoal/Ronaldo Campos
Foto mídia | Blog Alphonsian/Academy