Texto | HOMERO SANTIAGO

Poucas ciências são tão arredias a serem definidas quanto a filosofia. E talvez venha daí habitualmente se perguntar a quem mexe com filosofia o que precisamente vem a ser a dita cuja. Nessas ocasiões, o interrogado em regra tenta fugir à questão, desculpando-se por sua ignorância; quando o subterfúgio não funciona, a atitude inversa entra em cena: de boca cheia, alega-se que o assunto é complexo e realmente se o vai complicando com mil considerações, até que o interrogador desista.

Essa evitação, embora pareça afetação petulante, em verdade acha espeque numa razão básica: uma qualquer resposta mais incisiva tenderia a ser injustamente unilateral, desprezando uma polimorfia da filosofia que, no curso de sua história, mostrou-se inerente à sua prática. Quem responde sem senões à pergunta “o que é a filosofia?” inevitavelmente dá por totalidade da disciplina somente aquilo que ele próprio concebe como tal, seja concepção de lavra própria, seja emprestada a um terceiro. Nesse quadrante de indefinições, a vontade de ser direto e reto sempre periga descambar no deplorável “cada cabeça uma sentença”, pois como sabe quem quer que um dia tenha folheado uma história da filosofia, definições desse saber há aos magotes e para todas as cacholas.

Num saboroso fragmento dos Pensamentos (o 408 da ed. Lafuma), o seiscentista Blaise Pascal chamava a atenção, a título de “testemunho da loucura da ciência humana e da filosofia”, para o fato de o filósofo Michel de Montaigne ter uma vez mencionado a existência de “280 variedades de soberano bem”. Como verificamos indo aos Ensaios deste último (livro II, ensaio 12), tantas são as definições de bem quantas são as seitas filosóficas que já existiram. Daí, nas palavras de Montaigne que Pascal retoma, ser inevitável um “combate violento entre os filósofos”. Não importa qual pensador, invariavelmente se arroga o direito de proclamar aos quatro ventos como verdadeiro bem dos seres humanos apenas aquilo que ele, elezinho da silva, acredita sê-lo; em sendo assim, é inevitável as concepções, quase sempre conflituosas, irem se acumulando, inutilmente. Um espírito de porco poderia até distribuí-las numa grande gôndola onde cada um escolheria o bem que mais lhe aprouvesse à veneta e à tineta. Um magnífico mercado da ética prêt-à-porter.

Isso posto, dá para entender que evitar uma definição de filosofia implica, em primeiro lugar, a recusa em dar corda a esse cangaço erudito no qual cada asserção vira uma bala perdida. Como sugerido, uma semana de consultas a bons manuais e histórias da filosofia e será fácil ao leitor arrolar 280 definições. Não por outro motivo, os filósofos costumam deixar a impressão de gente que fala, fala, fala, e o mundo jamais se abala. A tal ponto que o mesmo Pascal conclui que melhor mesmo é desdenhar desse palavrório besta: “zombar da filosofia”, ele clava, “é verdadeiramente filosofar” (frag. 513).

Curiosamente, essa pilhéria está perto de tomar a forma de uma paradoxal definição de filosofia; por assim dizer, uma bendita ducentésima octogésima primeira definição que soaria mais ou menos assim: filosofia é a única ciência capaz de zombar de si. Não seria nada ruim. Provavelmente contra a intenção do próprio Pascal, a divertida tirada reserva à filosofia uma profundidade notável e, sobretudo, singular entre os saberes humanos. Querer e estar com a verdade é coisa fácil (pouco admira que tantos, nessa busca desenfreada, venham a morrer na praia das fake news), difícil é admitir não a possuir e, mesmo assim e por isso mesmo, escarnecer dos que acreditam detê-la e também dos que, escarnecendo destes, creem-se superiores a eles.

Apreciemos a radicalidade dessa caracterização rodopiante. O mais comum entre as ocupações e quaisquer saberes é afirmar e com frequência gabar-se da própria importância. Quem acabou de cozinhar pergunta, comida servida, se está bom; óbvio que quer aplauso, não um juízo. Os policiais consideram a polícia a coisa mais importante do mundo, e justificam assim a sua contumaz brutalidade. Os cientistas desabonam o descuido com a ciência e invocam uma tal “alfabetização científica” à mó de panaceia para nossos fragores. E por aí vai. Do marceneiro ao matemático, do pastor ao prestamista, todo mundo acha que o que faz é relevante, coisa séria e do interesse de muitos. Na antípoda dessa regra universal do orgulhar-se do próprio umbigo, emergiria a filosofia como a única ciência que se define só pela zombaria de tudo e de si mesma.

Desejar a verdade e gozar de certezas é o que todo mundo quer. Rara é a coragem de constituir um discurso humano, o único plenamente humanista, que combata a mentira sem tornar-se refém do verdadeiro, que aprecie a vida e o mundo sem desenxergar suas mazelas nem sonhar medi-las a ideais desumanos. Um discurso que sagazmente zombe dos deuses, dos homens, das ciências e, principalmente, de si mesmo. Muito riso, muito siso!, digamos invertendo a usual máxima. Uma grande piada em estado conceitual – quem sabe não seja esta uma definição possível de filosofia.


Homero Santiago é doutor em Filosofia e professor livre-docente de História da Filosofia Moderna da Universidade de São Paulo.

Diagramação | RONALDO CAMPOS
Design capa | RONALDO CAMPOS
Foto de Blaise Pascal | Musée du Louvre, Département des Peintures, RF 1479 – https://collections.louvre.fr/ark:/53355/cl010389756 – https://collections.louvre.fr/CGU

Share: