Texto | HOMERO SANTIAGO

Alceste:
“Eu não aguento mais, desespero, e meu plano
É cortar relações com o gênero humano.”
Philinte:
“Dor que assim filosofa, pra mim é selvagem,
E rio do negror que vejo em sua imagem.”

Moliére, O Misantropo

A meia-noite já ficara para trás, quando do celular sobreveio a estridência que clamava atenção a “alerta extremo” emitido pela Defesa Civil. Àquela hora! E o ruído assustador acompanhava-se de uma mensagem enigmática: misantropia. Ou quase, pois no meu caso li à tela um esquisito “misantropi4”. Precisei de alguns segundos para ajustar as lentes multifocais e acionar o cérebro, reconhecendo ali o algarismo que sei lá por que aqui e ali substitui a letra A em textos internéticos. O detalhe já me imprimiu a sugestão forte de que não era um aviso real, e sim uma grande e ousada brincadeira utilizando o aparato da Defesa Civil.

Não demorou para o público e os meios de comunicação resolverem a questão em duas palavras: “ataque hacker”; fórmula que tudo explica pela superfície sem elucidar nada do que é fundamental. Parece que uma pessoa ou, mais provável, um grupo infiltrou-se nos sistemas das Defesas Civis regionais emitindo o alerta, que com pequenas variações surgiu simultaneamente em quase uma dezena de estados. E até o momento em que escrevo, passados quase 20 dias da madrugada de 20 de junho, nenhuma investigação chegou a conclusões; “ataque hacker” ou não, seja lá o que implique isso, essa reles descrição da ação é incapaz de indicar o sentido da ação — por quê?

Ato contínuo ao susto que me arrancara da sonolência e influenciado pelo algarismo metido entre letras, imaginei uma colossal brincadeira e assaltou-me uma figura menos tecnológica e mais humana: devia de ser uma autêntica tropelia, uma daquelas artes típicas dos adolescentes que, combinando inocência e perversidade, não visam senão incomodar os outros, sem raiva nem desejo de vingança, só pelo prazer de encher o saco alheio. Piada de mau gosto, dirão; mas convenhamos que piada de bom gosto é igual feriado no domingo: pouco ou nada acrescenta à vida. Eu é que não vou condenar esse tipo de estrepolia, ainda mais porque as vívidas lembranças das ousadias de moleque (oh, memória, guardas com zelo o que seria vantagem perder-se no olvido!) excitam-me uma ponta de inveja pelas possibilidades tecnológicas hoje disponíveis aos arteiros.

Só mesmo com o dia amanhecido, após a nostalgia divagante e convencido tratar-se de uma grande arte, entrei a cogitar o sentido do alerta. Brincadeira ou não, chamava-nos a atenção para a ameaça de misantropia, termo que por si só indicava que o brincalhão era dotado de certa cultura — um meme percuciente caçoou: diante do aviso, o brasileiro quedou sem saber “se corria para um abrigo ou para o dicionário”. Ora, fosse o objetivo apenas amolar o país de madrugada, por que, em vez de simplesmente mandar todo mundo para o inferno, lançar mão de uma inusual expressão que remonta à Grécia antiga? Os meios noticiosos passaram o dia explicando que o “ódio à humanidade” configurava a misantropia. Limitaram-se a uma acepção mais estardalhosa do que exata. Embora o termo miso- remeta literalmente a ódio e venha acoplado à noção de humanidade, ficar só nisso é pecar por parcialidade e falta de sutileza.

Platão, no Fédon (89d-e), afirmava que a misantropia nasce da idealização ingênua que alguém se faz acerca da humanidade; depois de nesta depositar exageradas expectativas, decepciona-se com o que as pessoas realmente são. Ou seja, não é o conhecimento da natureza humana que produz o misantropo, mas justamente a sua ignorância. E se ódio daí deriva, é produto da decepção que nós mesmos produzimos e que, não raro, envolve uma boa dose de egocentrismo e incapacidade nossa de aceitar a diferença: condenamos o mundo e os outros pelo simples só porque não nos agradam. Pois é esse quiproquó cognitivo-sentimental que, milênios mais tarde, no século XVII, fornece o mote da comédia de Molière precisamente intitulada O Misantropo (acima citada pela tradução de Bárbara Heliodora). A peça nos diverte ao caricaturar Alceste em seu cômico desdém, meio moralista, meio histérico, a tudo e a todos que não correspondem às suas próprias convicções. A doença é tal, que o melhor amigo, como se fazendo as vezes de Defesa Civil, o alerta: cuidado! Só posso rir perante o negrume e o amargor de tua existência.

Então o traquina de 20 de junho — individual ou coletivo — seria apenas um decepcionado? Não sei; mas não é impossível que, em verdade, fosse um arauto filantropo, um amigo da humanidade que, em vez de disseminar o ódio, estivesse caridosamente alertando para os sentimentos daninhos que nós mesmos cultivamos, consciente ou inconscientemente; a real ameaça seria a nossa misantropia, não a dele. Pendo para essa interpretação mais generosa do insólito evento. Aquele arteiro digital teria cometido a benfazeja ousadia de, durante a madrugada, admoestar-nos para o sério risco incutido no rancor, na raiva, nos preconceitos, nas malquerenças, na indiferença que tantas vezes atravessam as nossas relações com os outros.


Homero Santiago é doutor em Filosofia e professor livre-docente de História da Filosofia Moderna da Universidade de São Paulo.

Diagramação | RONALDO CAMPOS
Foto | RONALDO CAMPOS

Share: