Ronaldo Assais Ribeiro Campos

Resumo: Talvez não seja tão complicado definir ética. Para saber defini-la, o primeiro passo é vencer o senso comum que a entende como um guia do certo ou errado, do permitido e não permitido. Porém, a ética é muito mais que isso! A definição de ética está nas palavras dos grandes pensadores e também em todas as pessoas que são mais sensíveis e atentas ao convívio humano.

Palavras-chave: Ética. Definição de ética. Relacionamento humano.

Por muitos anos entendia a ética como algo “perfeito”, criado por sabe-se lá quem, mas com certeza muito sábio, que listava em forma de código o que era correto e o que era incorreto.

Assim eram meus pensamentos quando recebia das empresas, logo no primeiro dia de trabalho e com certa solenidade e seriedade, o código de ética e de conduta. Não sei por que tenho essa intensa sensação de que estou sendo muito gentil com este ritual que geralmente acontecia nas primeiras horas da manhã, quase sempre no primeiro dia de trabalho e que tinha um ar muito mais ameaçador do que informativo.

Na verdade, entregavam aqueles documentos, que eu nunca lia, mas que em pensamentos eu entendia o que queriam me dizer: “Olha, você passou no teste de seleção, conversou com a psicóloga, que não encontrou nenhuma grande demência em você, foi aprovado pelo diretor da área, pois se mostrou tecnicamente capacitado para a função e o cargo que ocupará, mas, de fato, não sabemos se você rouba, mente etc. Apesar de todos os testes que aplicamos em você, ainda estamos com dúvida. Portanto, receba este monte de papelada e se fizer algo diferente do que está escrito aí, estará despedido. É simples, não é?”

Em seguida, me levavam para conhecer algumas áreas da empresa e começavam a apresentar uma quantidade infindável de pessoas e o que elas faziam. Nunca entendi por que faziam isso. Nunca! É inútil! Já nos primeiros passos do tour, nem lembrava mais do nome do meu guia, imagine lembrar o nome dos apresentados e o que eles faziam. Só tinha uma certeza: eles deviam ser importantes porque ocupavam os principais pontos turísticos da empresa. Digo principais pontos turísticos porque o tour sempre era seletivo. Por exemplo, nunca conheci o chefe de cozinha do refeitório da empresa, o chefe do departamento de limpeza, as meninas da recepção, encarregados do almoxarifado, motoristas e tantas outras áreas que nunca eram apresentadas.

Invariavelmente o último local visitado era minha mesa de trabalho — ou baia, como alguns diziam e ainda dizem. Pessoalmente detesto esse nome. Baia me lembra outra coisa… dá uma impressão esquisita! Este nome muito me lembra alguns locais que visitava na fazenda do meu tio quando era criança e para lá viajava em minhas férias escolares. Mas, enfim, meio tour feito (lembre-se de que o tour nunca era completo), papelada referente ao código de ética e conduta bem guardada no fundo da gaveta e, agora sim, mãos à obra.

Não importa o tempo que trabalhava nas empresas, o código de ética e conduta não mais saia da posição deixada no primeiro dia de trabalho. Ficava completamente esquecido e só era lembrado nos momentos de transição. Mas ainda bem que as coisas mudaram de alguns anos para cá. Leis anticorrupção foram aprovadas, como a Lei nº 12.846, de 1º de agosto de 2013. Uma outra medida mais antiga é a Sarbanes-Oxley, lei americana criada em 2002 para combater fraudes e escândalos contábeis e trazer maior confiança às escriturações contábeis e à governança corporativa. E mais recentemente, com os escândalos políticos e econômicos, a ética definitivamente entrou na pauta diária do cenário nacional.

“A ética ainda é vista como o que é certo e o que é errado, o que pode e o que não se pode fazer.”

 

Mesmo assim, sua definição continua causando confusão, ou seja, a ética ainda é vista como o que é certo e o que é errado, o que pode e o que não se pode fazer. Nela ainda impera uma visão cartesiana das coisas e essa visão tira o que ela tem de mais importante: permitir que todos participem das escolhas dos valores para que a relação entre as pessoas se torne a melhor possível. Exige de todo e qualquer relacionamento, não importa se é profissional, familiar, amoroso, seja lá o que for, a participação conjunta de todos os membros que dela participam para escolher e acordar entre si as regras do jogo.

Meu entendimento sobre ética começou a clarear quando fui estudar Filosofia na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP (FFLCH/USP). Na época, trabalhava numa grande empresa de cartões de crédito e no segundo semestre da graduação, a Ética era uma disciplina obrigatória. Lá tive contato com a filosofia grega, com as obras de Platão e Aristóteles, que são os percursores do estudo e definição da ética. Mas mesmo esses conceitos ficavam muito no plano teórico, ou seja, muita leitura, debate e reflexões abstratas. Parecia que não desciam ao plano dos mortais. Então, como entender a aplicação direta daquelas lindas teorias em nossas vidas?

Aqui faço um elogio ao professor Clóvis de Barros Filho, que soube como ninguém transformar vários conteúdos teóricos em palavras e exemplos simples ligados à vida cotidiana e de fácil entendimento para todos. Segundo ele, “ética é a inteligência compartilhada a serviço do aperfeiçoamento da convivência”. E assim como ele, outros também definem a ética como sendo algo maior que o “pode” e o “não pode”. Exemplo: “se você consegue contar para os seus amigos o que faz no trabalho, em suas viagens, em casa etc., pode ter certeza de que essas são ações éticas”.

Assim, também é possível encontrar mais pessoas que definem, cada qual ao seu modo, o que é ética, como elas a reconhecem em suas vidas e quão importante ela é para um convívio social saudável e justo. Tudo isso para mostrar que para falar e compreender o que é ética não é preciso um estudo formal. O importante é percebermos que ações e escolhas de vida nos mostram como somos e como são as pessoas. Portanto, mais do que palavras eruditas sobre a definição de ética é estarmos atentos/sensíveis para os nossos comportamentos e o daqueles com os quais convivemos. Então, é difícil definir ética?

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