Texto | HOMERO SANTIAGO

Um de meus autores preferidos é o nova-iorquino Bernard Malamud (1914-1986). Filho de pais judeus emigrados do leste-europeu, não é por acaso que quase todos os seus personagens sejam judeus que, nos Estados Unidos, enfrentam uma vida marcada por perrengues financeiros, desencontros amorosos e preconceitos de todo tipo; vivem cindidos entre as agruras do cotidiano e as esperanças (em geral, malogradas) de existência melhor na nova terra.

Se a historiografia e a cultura consagraram o judeu como signo de descompasso (em diáspora, perseguido, cidadão de nenhures), um judeu imigrado é um deslocado ao quadrado, ainda mais se não consegue efetivar, no novo lar, os sonhos que lhe moveram a deixar a terra natal. Não bastasse isso, Malamud ainda submete os seus personagens à exponenciação desse mal-estar, graças a um dado saliente, negativamente delineado, se podemos assim dizer, mas certamente um dos mais característicos do universo do escritor, que é a ausência de Deus.

Uma perfeita ilustração desse aspecto acha-se no conto intitulado “Anjo Levine”, cuja abertura já dá a medida do enorme drama: “Manischevitz, alfaiate, aos 51 anos de idade foi vítima de muitos reveses e de muita humilhação”. A loja que tinha incendiou-se, as dores de que padece o impedem de trabalhar, seu filho morreu na guerra, a filha casou-se e sumiu, a esposa, Fanny, definha na cama com problemas respiratórios. Ele suporta tudo estoicamente, religiosamente, e não entende por que tantos infortúnios acometem a si e aos seus; sob certo ângulo, como logo descobrimos, ele sofre até mais com a incompreensão das razões das desventuras que lhe atingem e que lhe parecem constituir um absurdo; acintoso, injusto consigo, um homem pio, e com Deus, que não pode ser senão um ente bondoso. Um dia, desconsolado, pedindo mil desculpas, Manischevitz implora: “Meu amado Deus, doçura de minha vida, será que eu mereci tudo que aconteceu comigo?” Nada de resposta. Tudo segue mal, piorando a cada dia, até que ele encontra a esposa à beira da morte; ela fala do passado, da morte do filho e afirma com força que queria viver mais. Em desespero, novamente procura ajuda divina. “Visitou uma sinagoga e lá falou a Deus, mas Deus parecia ter se ausentado. O alfaiate procurou no fundo de sua alma, mas lá tampouco encontrou esperança alguma.”

Bem entendido, não é que se trate de um universo rigorosamente sem Deus. Aliás, seria uma bênção para gente como Manischevitz, que pelo menos não mais clamaria em vão. Ao invés, o nome da divindade é invocado a toda hora, as cerimônias e os ritos guardam a sua lembrança e sugerem a sua presença. Em resposta, porém, só o lacerante silêncio; o contorno de um vazio. Deus funciona como o ponto de fuga alocado fora de um quadro e que dá as coordenadas para as ações desenvolvidas em cena; em sua direção, como as linhas que um pintor renascentista como Piero dela Francesca rigorosa e admiravelmente puxava de um pórtico e iam bater num ponto ordenador da perspectiva, assim é o lugar para o qual convergem as esperanças e súplicas geradas pelos sofrimentos impingidos aos judeus de Malamud.

Mas da pintura à vida, a comparação conhece um limite. Se realmente Deus fosse apenas um ponto fora do quadro e vivenciado só como um artifício organizador, talvez o silêncio não virasse drama. Acontece que a ausência de Deus não denota a pura e simples inexistência; ao contrário, a ausência está bem presente, delineada por invocações e lamúrias irrespondidas — a falta de algo que não está lá, embora devesse estar, conforme pensam, ou antes, acreditam os personagens.

Nesse mundo de que Deus se ausentou, o que resta ao ser humano fazer?

Em primeiro lugar, convencer-se de que é artífice de seu próprio destino. No recolho de contos Retratos de Fidelman, lemos um diálogo em que o protagonista roga ao pedinte que lhe atormenta: “Dê-me apenas um pouco de paz de espírito”, e ouve a dura resposta: “Isso você tem que achar sozinho”. Dá para dizer que aí vai a síntese do desafio ético que nos propõe Malamud. Uma vez que já não há receitas milagrosas, de cada atitude nossa provêm consequências que podem determinar o êxito ou a perdição; toca a cada um de nós o desafio de “achar sozinho” o próprio caminho, sem contar com as dádivas do céu. Se tantas adversidades e tristezas se abatem sobre os personagens malamudianos, não é só em virtude das circunstâncias, como também porque muitos se recusam a encarar a sua situação e a necessidade de transformação das próprias vidas.

Quando Deus se ausenta, resta um mundo em que as pessoas têm de reconciliar-se consigo mesmas, conviver com seus dramas, desventuras e também alegrias. Elas têm de pensar, refletir sobre suas ações, ainda que isso nem sempre seja agradável. O que fazer? A infinidade de respostas possíveis a essa indagação fundamental constitui a substância da obra de Malamud, que em seu conjunto, lida assim, toma a forma de um aprofundado estudo das consequências éticas da condição humana e de suas infinitas possibilidades, para o bem e para o mal.


Homero Santiago é doutor em Filosofia e professor livre-docente de História da Filosofia Moderna da Universidade de São Paulo.

Diagramação | RONALDO CAMPOS
Foto | Mahdi Dastmard/Unsplash

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