Texto | HOMERO SANTIAGO

É deplorável a chatice (no sentido metafórico) de ver tanta gente em nossos dias a defender a chatice (no sentido literal) do planeta que habitamos e que há muitíssimo tempo os melhores intelectos concebem e todos os instrumentos aferem ser esférico ou algo próximo disso (os polos são de fato um pouco achatados). Remexem-se nas catacumbas todos os sábios, inclusive aqueles que, como Tales e Anaxímenes, ambos da cidade grega de Mileto, outrora advogaram a platitude da terra; é que o fizeram com base em observações e argumentos que ao seu tempo, século VI a.C., tinham ponderadas razões de ser, hoje não mais. Não custa lembrar que aproximadamente três séculos mais tarde Erastóstenes de Cirene calculou com impressionante margem de acerto a circunferência da Terra.
Por isso mesmo é difícil não levantar a questão: como é possível a teimosia em conceber a terra plana, não obstante séculos de demonstrações em contrário? Uma via bastante cômoda seria explicar o fenômeno por efeito da grotesca ignorância. Prefiro contudo pensar que a coisa talvez não seja tão doida ou mero fruto da bronquice da inteligência; sobretudo se tivermos em conta as sugestões de nossa experiência corporal, isto é, o modo como nosso corpo situa-se num espaço vital que por nós é incessantemente experimentado como irredutível ao espaço geométrico-científico.
Em 1934, o filósofo alemão Edmund Husserl (1859-1938), o criador da fenomenologia, uma das mais influentes correntes filosóficas do século XX, redigiu um curto texto intitulado A arqui-originária terra não se move, que exercitava uma “reversão da doutrina copernicana na interpretação da visão de mundo habitual”. Interessava a Husserl discutir certa disparidade entre o planeta esquadrinhado pela ciência, e que desde os cálculos do polonês Nicolau Copérnico (1473-1543) comprovadamente move-se, e a ordinária experiência de um solo primordial em que se depositam camadas de sentidos diversos e não necessariamente devedores da cientificidade.
Ao passo que o planeta Terra se movimenta, particularmente girando em torno de seu próprio eixo (rotação) e ao redor do Sol (translação), a terra em que nós pisamos todos os dias não somente não se mexe como, mais que isso, fornece-nos o próprio paradigma da inamovível firmeza. De fato, quando recomendamos a alguém “ter os pés no chão”, sugerimos exatamente buscar apoio no que de mais firme e imóvel o nosso corpo conhece: a superfície que pisamos e sobre a qual vivemos. De um ponto de vista vital, a terra e a Terra são coisas tão diferentes quanto a língua em que nos exprimimos (afetos, ideias, reclamações) e o idioma esquadrinhado e recortado por um linguista em suas estruturas sintáticas (as desinências verbais, a vogal temática, o adjunto adnominal de posse etc.). Uma coisa não se reduz a outra, e isso definitivamente não é uma questão de saber ou ignorância, pois remete antes à experiência do mundo e do viver neste mundo que começa em nosso nascimento e que só termina quando fechamos os olhos pela última vez. Uma pessoa pode estudar física quanto quiser, compreender todas os experimentos que demonstram o real tamanho do Sol, e ainda assim continuar a ver o sol pequenino, aquele cujos raios deseja quando anda na praia; pode ter absoluta certeza da movimentação do planeta, só que nunca deixará de vivenciar o contrário. De um ponto de vista vital, o horizonte é sempre horizontal, jamais curvo; é sempre estável, jamais móvel, salvo quando vivenciado sob o agito de um terremoto, o que, não à toa, é muito excepcional e assustador.
Pois essa experiência necessária e pregnante a nós, seres dotados de corpo — com seres incorpóreos como anjos e fantasmas talvez fosse diferente, mas salvo enorme engano, não existem seres humanos senão dotados de corpo —, não nos ajuda a entender algo da condição de possibilidade do assim chamado terraplanismo? Acredito que sim, ao menos num sentido básico e sem pretensão a esgotar explicativamente o fenômeno. Ora, não é impossível que um lunático (e note-se que a lua do lunático pouco tem a ver com a Lua) construa teorias loucas e invente mil maneiras de comprovar a platitude do Terra; só que elas nunca chegariam a ser abraçadas se não encontrassem um solo fértil para a sua propagação, se não estivéssemos nós preparados para a recebê-las; em suma, se o terraplanismo não contasse com um campo de sentido em que se enraizar, qual seja, a nossa experiência da platitude da terra.
Caso haja algum acerto nesse raciocínio, acho que temos em mãos um dado precioso: uma mentira ou uma fake news não se impõe senão sob condições determinadas que não relevam imediatamente do saber ou do não saber (cientificamente falando), mas de um sentido vital. A Terra redonda não é a terra plana, e do ponto de vista de nossa vivência do mundo, o fato está longe de ser desprezível. Que isso possa conduzir a enganos persistentes, parece certo; mas de modo algum a fantasias sem nenhum vínculo com um fundo arqui-originário de sentido que remete à nossa humanidade corpórea. ■
Homero Santiago é doutor em Filosofia e professor livre-docente de História da Filosofia Moderna da Universidade de São Paulo.
Diagramação | RONALDO CAMPOS
Foto e imagem | Image Credit: NASA’s Earth Observatory e Dreamstime: Eratosthenes of Cyrene calculating the Earth’s circumference in his study.