Por Camila Barreto

A origem dos contos é tão antiga quanto a própria civilização humana. Os contos populares têm suas raízes na tradição oral — as histórias eram passadas entre membros de uma comunidade, entre os familiares, de pai para filho, e assim por diante. Há muitas teorias sobre a origem dos contos de fadas, e dentre as mais consideradas pelos teóricos destaca-se a origem oriental, que indica que os contos chegaram à Europa pelo contato com o Oriente. Isso explicaria, por exemplo, a recorrência de contos como o da Cinderela na China e também no Egito, mesmo com versões um pouco diferentes.

Influenciados pelo Romantismo do século XIX, os irmãos Jacob e Wilhelm Grimm realizaram uma pesquisa sobre o folclore alemão com o intuito de preservar a identidade cultural do país por meio do registro dos contos populares que por ali circulavam. Assim, deram início a uma coleção muito rica de contos de fadas e mitológicos que foram publicados entre os anos de 1812 e 1857, e que se tornaram alguns dos principais nomes quando o assunto é literatura infantil.

Na França do final do século XVII e início do século XVIII, um dos responsáveis pela popularização dos contos de fadas foi Charles Perrault, um aristocrata escritor que era também advogado e ministro do rei, e que fazia parte da Academia Francesa. Esse cargo de “escritor empregado” era parecido com o trabalho de um historiador, mas tendo em vista que o serviço era prestado à monarquia, o ideal era não falar sobre o rei, a não ser que fosse para falar bem.

Por essa razão, a maioria dos seus contos retrata a vida da população camponesa, como nas histórias da Chapeuzinho Vermelho e do Pequeno Polegar. Mesmo os contos que em alguns momentos se passam no castelo não retratam de forma muito detida a figura do rei, como em “A bela adormecida” e “Cinderela”, por exemplo, nos quais as narrativas desenrolam-se majoritariamente no campo.

Perrault também ficou conhecido por sua coletânea Contos da Mamãe Gansa, que contêm um teor mais educativo. Ainda que sua principal temática fosse a vida camponesa, suas histórias revolucionaram os hábitos de leitura entre os aristocratas. Entre as famílias das classes trabalhadoras do campo, era comum que houvesse um momento de contação de histórias, geralmente antes da hora de dormir, a chamada la veillée, quando os pais preparavam suas ferramentas para o trabalho do dia seguinte e as crianças ainda estavam acordadas.

A partir das histórias de Perrault, tornou-se comum também entre os nobres o hábito de se reunir para fazer a leitura oral e coletiva dos contos de fadas — costume esse que antes era mais frequente entre a classe camponesa —, isso porque o próprio Perrault era aristocrata, de modo que sua literatura ecoou muito bem entre a aristocracia francesa. Assim, com o boom da leitura entre as famílias das mais diversas classes, ocorre também um processo de alfabetização em massa. Isso tudo contribuiu, entre outros fatores, para a universalização do ensino da leitura na Revolução Francesa, já que a partir dali a comunicação entre as classes por meio da escrita e da leitura torna-se essencial.

A importância dos contos de fadas permanece até os dias de hoje, e vai além da alfabetização. Sob a perspectiva psicanalítica, as narrativas contribuem também para o processo de socialização das crianças. As histórias apresentam dificuldades e dilemas enfrentados pelas personagens, mas sempre, grosso modo, com a perspectiva de êxito, de que o final feliz é uma certeza. Ainda que a realidade não seja bem assim, essa perspectiva possibilita que as crianças se sintam mais encorajadas a adquirir autonomia diante das adversidades.

O psicólogo austríaco Bruno Bettelheim explica em seu livro A psicanálise dos contos de fadas que a literatura é aquela que melhor canaliza e transmite as informações do mundo às crianças, especialmente quando muito novas. Os contos apresentam problemas universais que estimulam a imaginação da criança e promovem o desenvolvimento do intelecto, ajudando também a tornar suas emoções mais claras, auxiliando a criança no processo de validação dos sentimentos e de atribuição de significado à vida.

Seja ouvindo as histórias pela primeira vez, seja relendo-as já quando adulto, seja transmitindo-as às novas gerações, os contos de fadas nos fazem participar da história, cogitar os finais possíveis, o que poderia ter sido, nos fazem mudar de voz, performar, interagir como leitores e transmissores. A potência dos contos de fadas incentiva a leitura e instiga a nossa imaginação, nos faz embarcar na fantasia de possibilidades e nos permite, também, criar as nossas próprias narrativas. Ainda que a leitura não mude o mundo, podemos nos deixar ser transformados por ela por meio da fantasia.


Camila Barreto venceu o Projeto Escrita 2019. Atualmente estuda Letras na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo.

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