Por Ronaldo Campos
Os líderes bem-sucedidos nascem feitos ou “se fazem”? Trata-se de um dom divino? O sucesso como executivo depende da posse de um certo número de capacidades e características ou há uma combinação de fatores que resultam numa boa liderança? A boa liderança — ou o seu potencial — é propriedade de um indivíduo ou reside na relação entre as pessoas? Os melhores alunos serão os melhores líderes?
Antes de 1930, acreditava-se que uma boa liderança era uma característica individual, que algumas poucas pessoas eram dotadas de capacidades e traços psicológicos que lhes permitiam ser líderes. Além disso, acreditava-se que essas capacidades e características eram inatas e não adquiridas. Em consequência dessas crenças, as pesquisas se orientavam para a identificação de traços psicológicos que pudessem “construir” outros líderes.
Após esse período, as pesquisas tomaram outro rumo e deixaram de focar apenas nas características pessoais dos executivos e passaram a analisar a natureza da liderança. Descobriu-se habilidades e técnicas que podem ser adquiridas por meio do aprendizado. Por exemplo, as competências para planejar e lançar uma iniciativa, para resolver problemas, para manter os canais de comunicação abertos e para aceitar responsabilidades; é verdade que algumas pessoas possuem uma maior facilidade para liderar do que outras, mas isso não quer dizer que não se possa desenvolver a liderança em qualquer pessoa.
Há, pelo menos, quatro variáveis principais que implicam numa boa liderança: 1) as características do líder; 2) as atitudes, necessidades e o perfil da equipe gerenciada; 3) as características da organização; e, 4) o meio social, econômico e político. Isso significa que a liderança não é uma propriedade do indivíduo, mas sim uma relação complexa entre essas variáveis. A velha discussão para saber quem veio primeiro: o ovo ou a galinha, torna a relação entre o líder e os liderados essencialmente circular. A estrutura e a política da organização, por exemplo, são estabelecidas pela alta direção. Uma vez estabelecidas, elas delimitam os padrões de liderança que são aceitos dentro da companhia. Contudo, influências vindas de “cima” (mudança na alta direção), de “baixo” (negociação coletiva) ou de “fora” (uma nova legislação) provocam mudanças na estrutura organizacional e consequentemente nas lideranças.
E quanto aos estudantes que tiveram um alto desempenho escolar? Eles serão excelentes líderes? Na realidade, não há nenhuma prova de que notas altas representam uma característica necessária para uma boa liderança. Até há uma correlação positiva, mas não é suficientemente grande para garantir resultados gerenciais satisfatórios. Naturalmente, há cargos que requere alta capacidade intelectual, mas não se conclui daí que haja uma correlação de um para um entre o resultado escolar e o “sucesso” como líder.
Pode-se argumentar que a realização intelectual, tal como é medida por notas altas, é prova de motivação e disposição para o trabalho. Talvez seja verdade no meio acadêmico, mas também é prova da disposição para se conformar às exigências totalmente arbitrárias do sistema educacional. Não há nenhum motivo para se pressupor que grande motivação e muito esforço escolar sejam os melhores indicadores de motivação e esforço na vida profissional.
Se a liderança é uma função — uma relação complexa entre o líder e a situação —, deve-se ter em mente que nem sempre os “melhores” estagiários serão os “melhores” líderes e que algumas pessoas, em algumas empresas, se revelarão líderes notáveis como gerentes de departamentos ou como supervisores de fábrica ou como analistas especializados. Também é fato que muitas delas não seriam bons líderes em cargos de alta direção — pelo menos dentro das circunstâncias prevalecentes na companhia. De qualquer maneira, a boa liderança pode ser ensinada.