Por Ronaldo Campos
Under the dome é uma história sobre uma pequena cidade, Chester’s Mill, no estado do Maine, EUA, que de repente é isolada do resto do mundo por um gigantesco domo transparente. Aqueles que ficaram embaixo do domo estão presos e não têm acesso à internet, à TV, ao rádio etc., ou seja, o mundo externo não chega ao mundo interno do domo e vice-versa.
Nesta Copa do Mundo, as autoridades do Catar e da Fifa tentaram copiar a ideia do escritor norte-americano Stephen King e criar um domo sobre Catar. Nos primeiros dias de novembro, uma carta foi enviada às seleções “lembrando” que o futebol deverá ser o centro das atenções. No discurso de abertura, o presidente da Fifa, Gianni Infantino (talvez o sobrenome dê uma pista de como ele se comporta mediante os assuntos importantes), fez um discurso de uma hora contra aqueles que criticaram o Catar por desrespeitar os direitos humanos, pelos milhares de mortes dos trabalhadores imigrantes sujeitos a uma jornada de trabalho de mais de 12 horas sob o calor escaldante do deserto, pelos direitos das mulheres e da comunidade LGBTQIA+.
É certo que uma partida de futebol não representa a sociedade mundial, mas é possível traçar alguns paralelos — por mais simples que sejam. Por exemplo, os times seriam as nações do mundo com suas aspirações, disputas e desejo de vitória. Entre elas há as mais ricas, que dispõem de medicina de ponta para os seus jogadores, de acompanhamento psicológico, de tecnologia etc. E há os “times inferiores” — como os locutores gostam de dizer —, que são as nações periféricas, fadadas à derrota e ao fracasso. Mesmo que vençam, sempre serão tratadas como “zebra”, ou seja, não adianta querer fazer parte do “Primeiro Mundo do futebol”.
O escritor George Orwell dizia que ficava espantado quando ouvia das pessoas que as competições esportivas criavam uma boa relação entre as nações. Se isso fosse verdade, bastaria colocar as pessoas em um estádio de futebol para que elas não se enfrentassem em um campo de batalha. Sabemos que o mundo é infinitamente mais complexo que qualquer disputa futebolística, e que dentro das quatro linhas, tanto os jogadores como as torcidas não se anulam em relação às eventuais desavenças que existe fora delas. A Rússia foi banida desta Copa pela invasão na Ucrânia. A Ucrânia, por sua vez, foi desclassificada logo na primeira rodada das seletivas. O que é compreensível porque sua população e os jogadores estão mais preocupados com os bombardeios, com a falta de água, de energia. Em suma, estão preocupados com a sua sobrevivência.
O mundo, mesmo com suas diferenças, continua girando enquanto a bola rola no Catar. É impossível isolar a Copa do resto do mundo. Infelizmente, muitos dos conflitos continuam, sejam eles históricos, sejam recentes: a invasão da Rússia na Ucrânia, os protestos no Irã e na China, os tiroteios em massa nos Estados Unidos, a disputa entre Israel e Palestina. Como impedir, por exemplo, que os jogadores do Irã não expressem no micromundo da Copa sua indignação e solidariedade em relação à morte da jovem Mahsa Amini quando detida pela polícia moral iraniana por não usar, supostamente, de modo correto o hijab (véu muçulmano).
A vitória da seleção do Marrocos sobre a Bélgica por 2 a 0 gerou uma onda de protestos xenofóbicos contra os imigrantes marroquinos na Bélgica e na Holanda; os jogadores da Alemanha posaram para a foto oficial no jogo de estreia contra o Japão com a mão na boca, em protesto contra a proibição de usar a braçadeira “One Love” em apoio à comunidade LGBTQIA+; a bandeira da Palestina e os atos pró-Palestina são proeminentes nos estádios dourados do Catar, enquanto os torcedores e a mídia israelense são menos bem-vindos no mundo árabe — mesmo que os dois países não estejam participando da Copa do Mundo.
É lícito o pedido para que os jogos sejam o centro do espetáculo, mas as questões planetárias não deixam de existir só porque o juiz apitou o início da partida — ainda mais num mundo hiperconectado como o nosso. Cada lance, cada gesto, cada comemoração de gol, tudo é captado pelas lentes e transmitido ao vivo para bilhões de pessoas ao redor do planeta. A não ser que as autoridades do Catar tenham a missão denotativa das acepções da palavra catar no Houaiss, que como verbo significa “procurar insistentemente”, “apanhar”, “pegar”, “retirar as impurezas” ou até mesmo como substantivo: “cáfila de camelos”. Do contrário, não faz sentido criar um domo sobre Catar.