Por Homero Santiago

Nem sempre as notícias são realmente novas. Às vezes, só relatam o já esperado, exalando o ranço de matéria reaproveitada. E nem é por preguiça dos jornalistas. Tome-se o exemplo das efemérides que se repetem todos os anos. A cada Natal falarão do Papai Noel e do menino Jesus, a TV mostrará uma “boa ação” que pretensamente sintetiza o espírito natalino; na Páscoa, com certeza vão propalar que o preço do chocolate anda pelas alturas; no dia de Finados… Bem, seja lá como tenha sido em anos anteriores, neste a coisa foi diferente, ao menos na cidade de São Paulo. Acho que pela primeira vez a imprensa teve algo de efetivamente novo a noticiar sobre os cemitérios que a cada 2 de novembro acolhem multidões de vivos que vão recordar seus mortos saudosos.

No dia 3 último, apenas levantado, tomo o jornal e meus olhos são atraídos por uma foto em destaque na primeira página. De chofre, parece-me um grilo encarnado; ato contínuo, leio a legenda e descubro tratar-se de um helicóptero que, no dia anterior, despejara pétalas sobre um cemitério. Reexamino a imagem e concluo que vermelhos são seguramente os pontinhos, as tais pétalas; quanto à cor da máquina, persiste a dúvida. Talvez seja mesmo vermelha, talvez se avermelhe porque a indefinição da imagem sugere as flores se desgrudando da fuselagem — a presbiopia não ajuda, mas deixa um quê de poesia: casquinhas metálicas metamorfoseando-se em pétalas encarnadas.

Depois, tomando um café, vou às páginas internas do periódico e fico sabendo que o helicóptero é só uma faceta da novidade. Também teve música ao vivo entre túmulos — o jornal estampa dois instrumentistas em ação, quiçá para descontrair e facilitar a “interação” entre mortos e vivos que há tempo não se veem (recordo-me de Sinfonia na Necrópole, divertida comédia cujo palco é o cemitério paulistano da Consolação). Houve ainda ampla distribuição, por jovens bem uniformizados e sorridentes, of course, de prospectos e filipetas louvando as “melhorias” do espaço e oferecendo descontos para a contratação de serviços, como se à entrada de um desses vernissages de venda de apartamentos — faltou sorvete e rifa de garrafa de uísque, mas deixa pra lá.

Qual a explicação desses fatos insólitos, que obrigaram os jornalistas, que humanamente deviam querer repousar no feriado, a descartar a reciclagem de matérias dos anos anteriores e fazer novas?

Sigo a leitura e vou inferindo as razões. Desde março, os cemitérios de São Paulo foram concedidos à administração privada. Como ninguém trabalha de graça, é preciso lucrar; daí as inovações. Não vou discutir os detalhes da passagem da guarda de nossos queridos entes defuntos a grupos privados. Falando em bom português, o buraco me parece estar mais embaixo.

Compreendo a particular dificuldade do ramo das pompas fúnebres. Os principais afetados, tendo já ido desta para melhor, não reclamam nem elogiam, sobretudo não pagam nada; a ampliação da clientela tampouco é simples, não pega bem propagandear a temida das gentes; imaginem o desastre de um reclame “Venha morrer conosco!” (embora algumas concessionárias ostentem nomes como Velar e Consolare, até onde apurei nenhuma ousou algo como Morire). No entanto, pergunto: a compreensível busca pelo lucro, que obriga a caçar os parentes, carece mesmo de seguir esse roteiro de mau gosto que envenena os campos santos com a lógica de shopping center? Compreendo que vivos e mortos — por que não também estes? — devem todos entrar no cálculo mercantil, mas precisam ser tão desrespeitosos com aqueles que só vão aos cemitérios em busca de um momento tranquilo, íntimo para reavivar memórias passadas? As concessionárias privadas propagandeiam que os cemitérios estão “melhores”. Será por causa das pétalas volantes que, arrastando os olhares para o alto, competem com as nossas lembranças e rebaixam as lápides e epitáfios que um dia aspiraram à eternidade? O espetáculo da chuva de pétalas contrastando com o som “ambiente” (irritante a quem ouve, humilhante a quem executa) enquanto se caminha por vendedores — essa consternação será absolutamente necessária para conquistar os consumidores?

O que houve de efetivamente novo no último Finados? Não sou ingênuo a ponto de crer que exista forma, hoje em da, de viver fora do mercado. Mas sinceramente acreditava que a morte nos livrava do capeta, ou ao menos dos exageros. A grande novidade do Finados de 2023 foi escancarar que nem os mortos estão a salvo. A seguir assim, mais uma década e os cemitérios terão se transformado em centros comerciais — não me espantarei quando oferecerem vídeos temáticos sobre as lápides e instalarem “praças de alimentação”. Então, o tradicional Requiescat in pace (“descanse em paz”) terá perdido o sentido original e se tornado apenas a senha de entrada no estrepitoso universo do consumo fúnebre, anualmente coroado por pétalas macabras, música intrometida e vendedores irritantes.

Doravante, na cidade de São Paulo, dá menos medo morrer do que estar morto, e condenado à eternidade dentro de um shopping.


Homero Santiago
Doutor em Filosofia e professor livre-docente de História da Filosofia Moderna na Universidade de São Paulo.

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