Por Ronaldo Campos
Há uma piada no exército que diz que um sargento perguntou à tropa: “Quem aqui, entre vocês, gosta de música?” Assim que os quatro primeiros soldados levantaram as mãos, ele ordenou que fossem rapidamente ao depósito levar o piano de cauda para a casa do general.
Foi-se o tempo em que a força física era um pré-requisito solicitado pelas empresas. Hoje em dia, esse atributo, com raríssimas exceções, inexiste nos anúncios de emprego. Por outro lado, pedem-se habilidades que tornam impossível saber qual é exatamente o perfil profissional desejado pela empresa. O resultado disso é uma inflação de adjetivos nos anúncios de emprego, principalmente quando as empresas tentam transformar atividades rotineiras e maçantes em algo excitante.
Antes que você responda a qualquer um desses anúncios, envie um e-mail para a empresa perguntando se ela espera que você trabalhe de segunda a sexta-feira, das 9h às 17h, ou se ela espera que você seja um super-herói da Marvel. Pode parecer exagero, mas um site de empregos publicou recentemente um anúncio em que, entre outros atributos exigidos, o candidato deveria ter “foco nas pessoas”, “atendimento de altíssima qualidade” e que tivesse “uma hospitalidade com poderes de super-herói”. Só não mencionava que era para o funcionário dar o troco certo para o cliente — já que se tratava de uma vaga para operador(a) de caixa de uma empresa varejista.
Outro anúncio, desta vez para trabalhar em uma empresa de telemarketing, procurava ninjas para os atendimentos telefônicos e, ao mesmo tempo, o candidato “deveria ser um super-herói” para com os clientes — nesse caso, era uma seguradora. A mania ninja não para por aqui. Outro anúncio procurava um “Ninja faixa preta” (para os atendimentos vips) e outro procurava “pessoas com atenção Ninja aos mínimos detalhes”. Só não pediram aos candidatos — que seriam entrevistados pessoalmente — que fossem vestidos de preto da cabeça aos pés, esgueirando-se pelo chão da recepção até a sala da entrevista, sem serem vistos. Candidatos pegos durante o percurso ninjístico seriam eliminados do processo seletivo.
É claro que nem todas as empresas esperam que os candidatos tenham as habilidades de um ninja. Algumas delas, inspiradas nos slogans da contracultura da década de 1960 — “make love, not war” —, requerem habilidades passionais: “paixão por vendas”, “paixão pela empresa” etc. Entendo perfeitamente ser apaixonado pelos filhos, pela esposa ou pelo marido, ou até por um time de futebol. Mas paixão para a realização de uma atividade profissional? Para a maioria das profissões, talvez esse não seja o sentimento mais adequado. Você prefere aplicar o seu dinheiro com um gerente que seja apaixonado pelo sobe e desce da bolsa de valores ou por um que entenda do mercado financeiro? Você prefere tratar uma cárie com um dentista emotivo ou com um que não faça você sentir dor? Entendo que há certas profissões que exigem certa dose de paixão, principalmente o amor ao próximo, por exemplo, as empresas do Terceiro Setor. Mas mesmo assim é difícil manter um estado apaixonado, ininterruptamente, durante oito horas diárias de trabalho. Haja coração!
Então, o que devem ter, em comum, os anúncios de empregos para os cargos de vendedor de sapatos, operador de telemarketing, bancário, médico-cirurgião, dentista etc.? O entusiasmo! As pessoas não precisam amar, serem apaixonadas pelos seus empregos ou trabalho. Performar-se bem deveria ser a principal exigência das empresas. Com atitudes adequadas, todos podem (e devem) sentir prazer e satisfação ao realizar suas tarefas — por mais simples que sejam. Mesmo quando as empresas são bem-intencionadas e pedem aos seus colaboradores que “se entreguem 100% ao trabalho”, elas erram ao tentar suprimir uma parte da vida do trabalhador. As pessoas não precisam maquiar sua personalidade para se manter no emprego. É justamente o contrário: as empresas precisam saber selecionar com transparência e franqueza as pessoas adequadas para o preenchimento das vagas em aberto.
Contar com um quadro de funcionários 100% entusiasmado e competente é o sonho de toda empresa. Mas sabemos que a realidade é muito diferente, que as pessoas precisam pagar suas contas e que nem sempre elas terão a sorte de encontrar o melhor emprego. Mas nem por isso deverão deixar sua vida particular de lado para estar “100% no trabalho”. Talvez o ponto-chave da questão seja exatamente este: “sua vida particular”. São momentos em que as empresas não podem exigir nada de seus colaboradores, e elas devem respeitar esses momentos exclusivos.
Portanto, da próxima vez que você se candidatar a uma vaga de emprego, pense no seguinte: imagine que está saindo com alguém pela primeira vez e vocês resolvem ir a um bar para se conhecerem melhor. Logo de cara, essa pessoa começa a dizer qual é a melhor data para vocês se casarem, quantos filhos terão, que você seja um pai “super-herói” ou uma mãe “super-heroína”, que também seja 100% apaixonado(a) e que tenha uma atenção ninja para tudo o que ele(a) disser. Com certeza você não irá ao segundo encontro! Então, quando se deparar com um anúncio de emprego que peça para você ter “paixão pelo trabalho”, que esteja “100% do tempo disponível” e que seja um “super-herói” ou uma “super-heroína”, não envie o seu currículo! Ignore-o! Afinal, os super-heróis não precisam de emprego.