Por Ronaldo Campos
Em 2008, estreou nos cinemas o desenho animado Horton e o mundo dos quem! Horton é um elefante professor que acredita na ciência e passa boa parte do tempo contando histórias divertidas aos filhotes dos outros animais da floresta. Certo dia, ele escuta um pedido de socorro vindo de um minúsculo grão que vaga pelo ar. Após muito esforço, Horton consegue estabelecer contato com o grão e descobre que lá não só vive um microrganismo, mas uma cidade repleta deles, a Quemlândia, e que são governados por um prefeito.
Por sua descoberta, Horton passa a ser visto pelos outros animais como alguém muito perigoso, já que ouve coisas que mais ninguém ouve e ao mesmo tempo corrompe as crianças com suas histórias um tanto “esquisitas”. Contudo, ele está determinado a salvar aquela população de microrganismos e sozinho enfrenta todas as dificuldades que lhe são impostas, até conseguir levar o grão para um local distante da floresta.
Os microrganismos, seres invisíveis a olho nu, habitam a Terra há pelo menos 3,5 bilhões de anos — que é a idade do fóssil mais antigo encontrado até hoje. Trata-se de uma cianobactéria, um microrganismo unicelular que, a exemplo de nós, seres humanos, armazena a informação genética em hélices duplas de DNA. Aliás, quando o genoma humano foi mapeado no começo deste século, descobriu-se que 8% do nosso DNA é formado por trechos originados de retrovírus. Devido ao processo de mutação, essa sequência de retrovírus em nosso DNA está inativa, mas abriu caminho para alguns cientistas inferirem que, antes do verbo, éramos algum tipo de vírus.
O retrovírus desempenha a função enzimática ao contrário do que costuma acontecer nas células, ou seja, ele produz moléculas de DNA a partir das moléculas de RNA. Um exemplo de retrovírus é o HIV, causador da aids. Quando o HIV infecta uma pessoa, o vírus se funde com o DNA da célula, que passa a replicar o código genético do vírus. Porém, ele pode passar anos se replicando silenciosamente no organismo infectado, sem dar sinais da doença. Outros encontros já são mais violentos, ou seja, enquanto se replica, ele consome todos os recursos da célula, para, em seguida, partir rumo a outros organismos que possa infectar. É o caso do novo coronavírus.
Ora, mas se o vírus é acelular, como é que ele surgiu na Terra? Além do mais, para ser considerado um ser vivo, não é preciso possuir ao menos uma célula? O que melhor responde a essas e outras questões é O mundo do RNA — tese que ganha cada vez mais adeptos entre os cientistas. Ela foi formulada pelo bioquímico norte-americano Walter Gilbert, ganhador do Prêmio Nobel de Química em 1980. Ele diz que nos primórdios, quando a Terra ainda era hostil a qualquer tipo de vida, os elementos químicos, aleatoriamente, levaram os nucleotídeos a se agruparem em moléculas de RNA; assim como os aminoácidos, os nucleotídeos são moléculas complexas, mas sem vida. Os aminoácidos servem de base para a formação da proteína e os nucleotídeos de base para a formação do DNA. Portanto, os vírus habitam a Terra muito antes da existência de qualquer ser vivo.
A partir daí, o resto é história, ou seja, foram necessários milhões de milhares de anos para que as moléculas de RNA se juntassem a outras que estivessem por perto e, assim, definitivamente consolidassem o processo de reprodução. O passo seguinte foi “evoluírem” para um invólucro mais seguro de DNA. Assim como na história dos três porquinhos, o RNA construiu uma casa de palha e o DNA, uma casa bem mais resistente. Pode-se dizer que o DNA é um excelente engenheiro com Ph.D., enquanto o RNA é um bom construtor.
Hoje, sabe-se que todo ser vivo armazena sua informação genética no DNA. A única exceção é o vírus que tem seu código genético tanto no DNA quanto no RNA. O Sars-Cov-2, nome do vírus causador da pandemia do novo coronavírus, tem seu código genético armazenado no RNA. Assim como na história de Horton, em que o minúsculo grão vaga pelo ar, esse vírus também vaga pelo ar, só que à procura de seres humanos geneticamente compatíveis para que possa depositar seu material genético e consumir, até o fim, todos os recursos disponíveis de seu hospedeiro.
Por enquanto, só nos resta continuar seguindo as principais recomendações científicas, ou seja, o uso de máscara, a higienização das mãos e o distanciamento social, para que o vírus não se prolifere. Enquanto todas as pessoas não forem vacinadas, estaremos numa verdadeira guerra contra os habitantes de Quemlândia. Sim, é uma guerra, mesmo! Só que desta vez, os seres que habitam o mundo de quem não são fofinhos, nem simpáticos, nem bonzinhos a ponto de alguém querer salvá-los. Mesmo que, porventura, exista algum presidente desavisado — que sofra de alteração patológica das faculdades mentais — e que queira tentar contato com o prefeito de lá para manter esse vírus entre nós, é bom que ele saiba que estamos protegidos pelo lema do brasão da Universidade de São Paulo, Scientia vinces — pela ciência vencerás.