Por Homero Santiago

O poder das imagens é conhecido há milênios. Ainda assim, arrisco dizer que só no século passado se chegou a dimensionar com clareza a colossal força das imagens como meio de representação direta da realidade e os efeitos de sua comunicação rápida e maciça. Uma pintura antiga, por exemplo, representava e comunicava algo; jamais, contudo, de maneira quase instantânea, como foi o caso da televisão e é hoje o das redes sociais. Mais ainda, nunca o uso das imagens foi tão ostensivo e acessível a qualquer um; se outrora a pintura e o cinema exigiam conhecimentos técnicos e um aparato custoso, agora basta um reles celular para gravar e divulgar pelo mundo qualquer coisa.

Essa descoberta da força dos meios de comunicação visual foi tão marcante que décadas atrás jocosamente perguntavam: “A revolução será televisionada?”. A sugestão era clara: até mesmo o evento revolucionário, por definição destinado a romper com a ordem das coisas, só passaria à ordem dos fatos por intermédio daquele que então era o principal canal de difusão mundial? É como se a televisão funcionasse à guisa de critério último da própria realidade, da própria vida, orientando-nos sobre os modos de agir e de pensar.

Embora a potência da TV tenha caducado para gerações que pouco a acompanham, algo da questão permanece, com o devido ajuste: o critério da realidade não será agora difundir-se à exaustão pelas redes sociais? Como antigamente se pensava que não existia o que não aparecia na TV, não se imagina hoje que inexiste o que não está na internet?

Foram mais ou menos esses os pensamentos que me despertaram a instalação de Kidlat Tahimik na última Bienal de Arte de São Paulo, no ano passado. Só à véspera de seu encerramento, em dezembro, calhou-me visitar a mostra, e por isso venho com certo retardo falar dessa instigante obra do artista nascido nas Filipinas, em 1942, e lá ainda residente.

Ao caminhar pela instalação (e suas dimensões realmente possibilitavam isso) é como se entrássemos num ferro-velho de bugigangas ideológicas, ou aquilo que numa canção Cazuza chamou “um museu de grandes novidades”: um cavalo de Troia, ícones pop como Mickey Mouse e o Homem-Aranha arrostando entidades indígenas; tudo espalhado num espaço privilegiado, próximo à entrada principal da mostra e incontornável a quem buscava alcançar o piso superior. Seu longo título merece atenção: Killing us softly… with their Spams… (Songs, Prayers, Alphabets, Movies, Superheroes…), noutras palavras, Matando-nos suavemente… com seus Spams… (músicas, preces, alfabetos, filmes, super-heróis…) — importa notar que, conforme o jogo de palavras perdido na tradução, isso que nos mata está assimilado ao bem conhecido, tão odiado quanto inevitável, lixo internético que se denomina spam.

Personagens de capacete ocupam uma nave que parece inspirada em barcos militares de desembarque, seguram motosserras; é uma violência nada suave. Alguns também trazem câmeras de vídeo, e atrás deles está um grande gramofone, como a animar a chegada. Não consigo não pensar em Apolicapse Now, na famosa cena em que uma aldeia litorânea vietnamita é arrasada ao som da Cavalgada das Valquírias, de Richard Wagner, para que um oficial norte-americano e seus convidados possam “pegar ondas” à vontade.

Em bonitas peças esculpidas em madeira, surge a figura tupi de Ipupiara encarando um enorme navio europeu enquanto Inhabian, conhecida na cultura filipina como deusa dos ventos, desafia a musa Marilyn Monroe e assopra com força, como se quisesse afastar os males, isto é, os que arribam com seus barcos e ameaçam com as motosserras furiosas. Nós, que conhecemos o fim da história, ou melhor, o seu andamento, sabemos que o esforço resistente foi inútil, e continua sendo, com a destruição ostensiva das florestas e de seus habitantes.

Até aí, nada de muito surpreendente; as motosserras, os ícones do cinema, os spams. Intrigaram-me, sim, as misteriosas câmeras de vídeo, sugestivas de toda a ambiguidade do poder das imagens. Por um lado, o flagelo de tantos lugares e populações submetidos à pilhagem mercantil parece só atingir seu limite quando entra para o mundo das imagens, as quais dominam e matam com suavidade. Por outro lado e por consequência, a destruição do ambiente, ao fazer-se imagem, torna-se uma realidade instagramável, comunicável; ora, justamente nesse momento não passa a ser concebível, mais que nunca, uma reação em cadeia na direção inversa? Pensemos: ouvir falar de desmatamento na Amazônia à proporção de vários estádios de futebol ao dia é uma coisa distante; ver a toda hora o resultado na tela do celular é diferente e pode surtir novos efeitos. A imagem que aprisiona também pode pôr em movimento.

A sutil ambiguidade da instalação de Kidlat Tahimik deixou-me com a pulga atrás da orelha. Apesar de tenebrosa, parece guardar naquelas filmadoras uma ponta de otimismo. Tendo enfim alcançado a realidade da imagem, o apocalipse planetário não despertará reações inéditas? A conferir nas próximas décadas.

 


Homero Santiago
Doutor em Filosofia e professor livre-docente de História da Filosofia Moderna na Universidade de São Paulo.

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