Por Joyce de Sousa Silva

Com o segundo ano desta pandemia, vem também o segundo dia dos namorados em quarentena. E, nessa data, todo o incentivo comercial ao amor romântico virá à tona novamente, já que as propagandas pouco consideram as condições em que nos encontramos quando se trata de lucrar. É o que constatamos ao relembrar o Natal, o Ano-novo e a Páscoa: a publicidade para comprar presentes, reunir-se em festas etc. resultou em variações do vírus, aumento de casos e mortes e a extensão da horrenda quarentena.

Mas qual será o efeito do contraste entre desejar ter o amado em companhia e a solidão à qual estamos fadados neste isolamento social? Muitos cairão no conhecido ciclo de insatisfação, tristeza e baixa autoestima, e direcionarão toda essa energia negativa a si mesmos.

Talvez, porém, mais proveitoso seja que desse confronto inevitável faça-se uma reflexão sobre o amor – ou a falta dele –, em específico, aquele que reservamos a nós mesmos. Afinal, andamos passando muito tempo na própria companhia.

Assim sendo, se tal sentimento é tão procurado, por que temos tanta dificuldade em direcioná-lo ao próprio âmago? Enquanto não podemos – ou não queremos – responder a essa questão, o número de transtornos de humor e identidade só cresce, por exemplo. É que essas complicações são intrínsecas à autoconfiança e, mesmo que soe clichê – e aqui cabe dizer que todo clichê carrega verdade por repetição –, é preciso estar em harmonia consigo para relacionar-se com o mundo de maneira saudável.

No entanto, para calar toda necessidade intrapessoal que surge, justamente aquelas que poderiam direcionar ao autoconhecimento e à autoapreciação, procuramos distrações imediatas. À beira desse abismo estranho chamado “eu”, sentimos inquietações insuportáveis, talvez por medo de encarar os traços próprios de quem se abandonou. O grande poeta Fernando Pessoa, em seu poema “Hora absurda”, enumera as características de um eu esquecido por si, como um palácio em ruínas:

O palácio está em ruínas… Dói ver no parque o abandono
Da fonte sem repuxo… Ninguém ergue o olhar da estrada
E sente saudades de si ante aquele lugar-Outono…
Esta paisagem é um manuscrito com a frase mais bela cortada…

Em contrapartida, muito sabemos sobre buscar em palácios alheios todos os padrões que desejamos adotar. Para constituir-se de acordo com a moda, por mais supérflua que seja, as redes sociais se fizeram indispensáveis. Dados apontam que o Instagram tem 500 milhões de acessos diários, ou seja: especulamo-nos sob influência de imagens que pretendem ostentar perfeição, sendo pouquíssimo sinceras e superficiais. O resultado é o desgosto doloroso com a aparência real e as condições concretas da vida, naturalmente conflituosas.

Também deriva desse desamor a carência emocional, fator determinante de relacionamentos prejudiciais e tóxicos. Em sua obra Girassol da madrugada, Mário de Andrade emprega uma voz que diz que “o amor se compõe feito uma luta”, enquanto Clarice Lispector afirmava que esse afeto é mais fatal do que se pensa, e por isso recuso a noção da primeira fala: como na canção de Karina Buhr, prefiro um “Amor Brando”, caloroso, mas não inflamável, já que a saúde mental e a harmonia pessoal são caras demais para serem secundárias a um romance.

É importante, porém, que não se confunda amor-próprio com egoísmo. Segundo o dicionário, este último caracteriza-se como uma desconsideração do interesse e bem-estar do próximo, ao passo que o primeiro, ao contrário, conhece a benevolência por excelência, porque a tem, antes, para si e a estenderá para todos a sua volta.

Somente depois de refletir sobre tal assunto, em relação ao qual estamos tão acostumados a simplesmente aderir aos rótulos sem ao menos olhar para as especificações, seremos capazes de viver dias de namorados que enfrentam alegremente as distâncias e outras eventuais dificuldades, e, ao mesmo tempo, estar em paz na própria e solícita companhia. Então, para abandonar as noções que não nos servem, que se tome como fórmula as palavras de Raul Seixas:

Eu prefiro ser essa metamorfose ambulante
Do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo
Sobre o que é o amor
Sobre que eu nem sei quem sou.


Joyce de Sousa Silva

Estudante de Letras na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo.

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