Por Homero Santiago

Dentre as invenções humanas, poucas são tão complexas quanto o dinheiro; entendamos: um equivalente geral que permite as trocas entre as coisas. Ainda que possamos conceber uma sociedade sem dinheiro, fato é que na nossa é praticamente impossível a vida fora dos circuitos atravessados e determinados pelo dinheiro em suas variadas modalidades: numerário, cartão de crédito, pix etc. No caso, o dinheiro funciona como um objeto abstrato que, porém, condiciona mui concretamente as vidas dos indivíduos e, determinando como estes se relacionam entre si, condiciona também a inteireza da vida social.

Como poucos, o sociólogo alemão Georg Simmel (1858-1918) soube captar as peculiaridades desse objeto, sobretudo em suas conexões com a liberdade humana, e compôs uma interessantíssima Filosofia do dinheiro. Ali aprendemos que, embora à primeira vista o dinheiro pareça só um mecanismo de opressão, não é bem assim. Desde que não nos deixemos levar por pendores morais que só reconhecem no “vil metal” um objeto que aliena e corrompe o ser humano, as considerações de Simmel lançam preciosa luz sobre a ambivalência do dinheiro.

Realmente, ele é fator de submissão. Há pessoas que, à maneira do tio Patinhas, vivem para e pelo dinheiro; este é um instrumento de abuso, como quando alguém paga por seus direitos ou os cria conforme a sua conveniência (o dinheiro, uma vez disse argutamente Marx, é poder que a pessoa “traz consigo no bolso”). Acontece, porém, que o mesmo dinheiro que veicula a sujeição, por um lado, por outro também libera ao afastar a necessidade de a tudo sujeitar-se, a todo momento e por qualquer coisa; tem o condão de expandir o campo de ação de seu portador, na medida em que o desacorrenta da prisão das coerções cotidianas imediatas e abre-lhe novas possibilidades.

Entre tantas acepções possíveis do termo “liberdade”, Simmel explora um sentido básico no qual o dinheiro ocupa um lugar crucial. Sigamos o raciocínio. Se concebermos a vida humana como “uma alternância regular de apegos e desapegos, obrigações e liberações […], o que experimentamos como liberdade amiúde não é uma realidade, mas só uma mudança de obrigação”. O liberar-se de uma pressão que sobre nós pesava, isto é, uma descompressão, gera o sentimento de liberdade; esta, portanto, em vez de coisa ou estado, é um movimento, que sentimos e de que temos consciência, de liberação de uma coerção e a consequente abertura de uma nova situação.

Posto isso, compreende-se a importância do dinheiro para a determinação de nossa liberdade ou de nossa servidão. Muito amiúde e como nenhum outro objeto, o dinheiro nos faculta a liberação relativamente às pressões das coisas e insufla em nós o sentimento de liberdade. Não porque simplesmente a compre, como se a liberdade fosse um objeto entre outros, mas por ocasionar uma relação mais livre com o mundo ao nosso redor, tirando de nossas costas, por assim dizer, fardos impostos pelas necessidades, sobretudo as mais imediatas. Por exemplo, é fundamental para a concepção de liberdade humana uma relação com a temporalidade tal que o futuro surja como um campo de possibilidades que mais ou menos dependam de nossas ações. Ora, qual porvir se apresenta a uma pessoa que, sem recursos financeiros, tem de preocupar-se incessantemente com os meios de aquisição da próxima refeição? O presente torna-se uma prisão e o futuro é um horizonte inexistente, que não vai além da satisfação mínima de carências imediatas.

Dessa perspectiva, a questão da liberdade humana e a esperança de uma vida feliz, ao menos em sociedades como as nossas, parecem inseparáveis da posse de dinheiro (ninguém se regozija na miséria) e, mais ainda, da posse regular de dinheiro. Em vez de efêmeros sentimentos de liberação que vão e vêm ao sabor da fortuna, a regularidade da posse é capaz de engendrar uma relação mais estável com as coisas e as pessoas, promovendo em nós uma espécie de apaziguamento anímico inconcebível numa situação invariavelmente periclitante e em que só contamos com a sorte.

Não espanta, pois, que uma questão candente na atualidade seja o debate em torno de programas de garantia de um rendimento mínimo aos cidadãos – fala-se mesmo em “renda de cidadania”. Ou seja, mais e mais se compreende que a posse regular de dinheiro deve ser encarada como um direito, um integrante do próprio “ser cidadão”, e não um prêmio, como se a vida social fosse uma grande loteria, ou só fruto das contingentes circunstâncias da existência de cada um. O direito ao dinheiro aparece então como uma espécie de direito fundamental de todos os cidadãos, “direito a ter direitos”, como definem alguns. O acesso regular ao dinheiro seria não somente um direito como saúde e educação, por exemplo, mas uma condição primária para que as pessoas possam conceber ter direitos e buscar conquistá-los.

Em suma, não é que o dinheiro garanta a liberdade e a felicidade. Mais e mais apenas se consolida a certeza de que, na completa penúria, essas questões sequer têm um sentido relevante.


Homero Santiago
Doutor em Filosofia e professor livre-docente de História da Filosofia Moderna na Universidade de São Paulo.

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