Por Homero Santiago
Verão combina com férias e praia. Infelizmente, sobretudo no Sudeste do país, a estação quente vem junto de temporais e enchentes, deslizamentos e escombros, mortos e desabrigados. A cada ano a história se repete, culminando às vezes em tragédias como as deste ano. Na bela canção de Tom Jobim, as “águas de março” fecham o verão; na vida de muitos brasileiros, elas se avolumam com as lágrimas que os sobreviventes derramam pelos que morreram com as águas de janeiro e fevereiro, e também de março. “É o carro enguiçado, é a lama, é a lama”. Segundo os jornais, desaparecidos ainda são procurados aqui e ali.
Findos os temporais e mal desfeito o choque, começa a etapa de apuração de causas, justificativas espúrias e distribuição de responsabilidades. É então que, à maneira das águas sazonais, voltamos a ouvir certos mantras explicativos que, entre o cinismo e a crueldade, chegam a culpar os vitimados por sua vitimação. Nesse andamento, um mandatário político observou que claramente faltou “alguma visão de futuro” da parte dos que construíram residências em áreas tão perigosas quanto as soterradas. Numa mesma toada, já que o déficit de perspectiva urbanística está a um passo de sugerir a incapacidade cognitiva, observa-se que alagamentos, desabamentos e que tais, tudo começa nas enchentes, e estas têm por causa inicial a “falta de consciência” das pessoas que, descuidadas com o lixo, provocam o entupimento dos bueiros que dariam escoamento à água; deparei com o veredito num portal da internet: “Quando acontece enchente, a culpa é do governo. A culpa é da população que joga lixo no bueiro”.
Convenhamos, para exprimir o destino dessa gente que atavicamente sofre e morre por falta de consciência (e ainda tem a pachorra de culpar os outros), só mesmo muitas “campanhas de conscientização”, as que regularmente nos chegam pela mídia nem bem os mortos são enterrados. Lá vêm especialistas explicando por que é errado construir em áreas perigosas, esclarecimentos sobre a importância de dar boa destinação ao lixo, e assim por diante. A mídia angaria verba publicitária, os governantes se alijam das responsabilidades (as pessoas são burras mesmo!) e o pessoal “consciente” (que geralmente mora em áreas imunes a enchentes) dorme em paz, deitando no travesseiro a própria consciência.
Caros e caras leitores, não será difícil desconfiar que, no âmbito de uma coluna dedicada à filosofia, o tema sobre o qual recai o nosso interesse não é exatamente o regime pluvial brasileiro, nem a desfaçatez das classes mandatárias ou privilegiadas. Importa, sim, sublinhar essa ideia tão curiosa de que a falta de algo que, em princípio, só existe na mente humana — aquilo que chamamos de consciência — seja capaz de produzir efeitos tão devastadores no mundo. Como a presença ou não de “consciência” (acerca da ocupação urbana ou da destinação do lixo, conforme os exemplos) pode acarretar diferenças tão gritantes entre as vidas daqueles que a possuem e a dos que não a possuem?
Para ficar só no âmbito aqui escolhido, quem tem consciência de futuro, por saber bem o que quer para si e para sua família, jamais construiria uma casa num lugar cujo risco de desabamento é evidente; quem tem consciência da cadeia causal entre bueiros e enchentes jamais jogaria lixo na rua. Conclusão deveras singular: ainda que normalmente se diga que a prática (nossos atos) interessa muito mais que a teoria (nossas ideias), no caso, é a “consciência” (um conteúdo mental) dos cidadãos que parece determinar a ocupação urbana e os rios poluídos, as enchentes e as calamidades estivais — em Petrópolis, em Franco da Rocha, no Rio de Janeiro, as pessoas perderam seus bens e suas vidas em tragédias ocasionadas pela falta de ideias corretas ou pela presença de ideias erradas.
E depois ainda dizem que os filósofos é que são idealistas!
É como se a noção de “consciência” designasse algo que pode ser tanto causa quanto remédio de acontecimentos; a ausência de consciência causa o problema, sua presença o resolveria. Temos aí um uso e uma compreensão do termo “consciência” que são frequentes em várias situações; basta atentarmos a expressões linguísticas usuais: “ter consciência de algo”, “despertar a consciência de alguém para alguma coisa”, “fazer algo com consciência”, “fazer algo sem consciência”, “formar cidadãos conscientes” etc. Ora, ainda que tais usos sejam corriqueiros, não são nada triviais; e acredito que, se interrogássemos quem enuncia um juízo do tipo “fulano não tem consciência”, dificilmente ouviríamos uma clara definição do que é designado pelo termo “consciência”.
Para terminar, e já convidando os leitores a seguir essa conversa num próximo texto, adianto que tendo a crer que o termo “consciência” nesses contextos diz muito pouco, não apresenta um conteúdo preciso e, quase sempre, só cumpre uma função ofensiva. Um detalhe chamativo: por que é sempre ao outro que falta “consciência”, jamais a nós mesmos? Como tornar uma última vez à canção de Tom Jobim , “é um mistério profundo”.
Homero Santiago
Doutor em Filosofia, o professor Homero Santiago é livre-docente de História da Filosofia Moderna na Universidade de São Paulo.