Por Homero Santiago

Nas últimas férias, visitei Brasília com meus familiares. Vale a pena. A capital federal tem peculiaridades (nem todas boas) que merecem ser descobertas. Não é por isso, todavia, que recordo o passeio, e sim porque foi ao retornar que vivenciei uma experiência inusitada que me permitiu, ou antes, me coagiu a um vislumbre tão cristalino quanto medonho do momento delicado que vivemos no país.

Desembarcados, buscamos um táxi. Tão logo entramos, meu filho adolescente, no assento atrás do motorista, tentou abrir a janela. Como estava travada e ele forçou um pouco, produziu-se um “trec”. O taxista — uns 45 anos, espaduado, cocuruto raspado e barba aparada — o advertiu, cobrando cuidado ao mexer ali, pois arriscava estragar o “carro legal do tio”. Após essa intimidade duvidosa (será esse o tipo que as pessoas denominam “tiozão”?), solicitou ainda, aos pais, que o mandássemos parar. “Se estraga o carro, como eu fico?”

Até aí, acreditei ser só mesmo um exagero nas palavras; modulando-as com aspereza, mas sem maiores consequências. Entrementes, o sujeito persistiu. “Este é o meu carro de trabalho, um carro legal, não pode quebrar. Senão, vou trabalhar como? De jegue?”. Dirigindo-se especificamente ao meu filho, foi além. “O tio gosta de trabalhar. O tio é policial, esse é meu segundo emprego. Se você quebra o carro do tio, como fica?” Apesar de nosso silêncio e do evidente acabrunhamento de meu filho (ou talvez por isso; um impertinente adora o silêncio alheio), ainda antes de abandonarmos os arredores do aeroporto, o “tio” voltou à carga: “O tio gosta de criança, o tio não gosta de bandido”. Os vidros travados serviam então para repelir assaltantes, concluí com meus botões. “O tio gosta de criança, o tio não gosta é de bandido; olha aqui o que o tio tem pros bandidos, pra matar bandido”. Ele falou e coordenou as palavras ao gesto de pegar e exibir, quase acariciando, uma pistola.

Não preciso insistir que, num instante, passamos — filho, esposa, eu — do desconforto ao choque, vendo a arma e sem entender como uma inconveniência adolescente havia levado àquilo. Marcação de território (em sentido animal)? Admoestação sobre a necessidade de enrijecer a educação do filho? Ou alerta sobre a solução final de qualquer problema surgido no curso da viagem? Exibição pura e simples?

A cabeça girou e o rodopio obrigou-me a tentar elaborar o horror. Ao longo do trajeto, fui conduzido à lembrança de um livrinho que eu lera havia uns anos atraído pelo título: Efeito Bolsonaro — coletânea de contos de um autor que ainda desconheço (Mauro Ferraz) e que à época considerei de parco valor. No táxi, porém, nos 20 ou 30 minutos entre o aeroporto e minha casa, o juízo literário foi sendo compensado pelo valor de uma visada psicossociológica que, afinal, eu sentia na pele. Pelo exercício ficcional, conseguira-se captar e dar forma a um elemento nevrálgico de nossa vida nacional presente.

Em novembro de 2017, um pré-candidato à presidência da República declarou: “Todo e qualquer cidadão de bem, se quiser ter uma arma, no que depender de mim, a terá. E para o homem do campo, fuzil!”. A suposição do livro lançado em 2018 (vale frisar: antes das eleições) era a vitória desse candidato e a efetivação da promessa. As estorietas narram os efeitos da liberação completa das armas e como se foi plasmando uma vida social mediada pelo armamento, o qual finalmente se torna uma extensão do caráter e da razão, da personalidade de cada um, já que todos passam a medir-se pelo calibre da inteligência, digo, de sua arma, e ponderar o valor de cada argumento segundo a qualidade da mira do argumentador.

Afinal, não encontrei outra maneira de encarar o acontecido senão à guisa de mergulho na guerra de todos contra todos concebida por Thomas Hobbes, no século XVII, como marca distintiva do estado de natureza, no qual quem pode mais chora menos. Só que eu vivenciava isso em pleno estado civil da democracia brasileira de 2022!

Ouso dizer que, a partir daí, o termo “efeito” posto no título daquele livro que eu lera despretensiosamente fez-se claro. Pena que de uma clareza vinda à custa do horror: assistimos à paulatina constituição entre nós de um novo modo de vida — com que vamos nos acostumando — em que uma arma integra a personalidade e a capacidade de agir violentamente vira fiadora última do bom andamento das coisas.

Um tipo de vida que, naquele táxi, sintetizava-se numa pistola. Como alguém mostra uma demonstração matemática, a fim de solidificar a verdade, mostrou-se uma pistola. O aspecto mais pavoroso nem é que sai a razão e entra a violência; pior, a violência faz-se razão. Uma vida em armas, à luz do dia, sem vergonha e normalmente. Da pistola despontava uma forma de pensar e de agir, uma maneira de lidar com as circunstâncias e com os outros, uma concepção de mundo que, infelizmente, parece atrair hoje em dia parcela significativa de nossos compatriotas.

Aquele taxista tiozão armado virou para mim o perfeito signo de uma vida social carunchada. A nossa!


Homero Santiago

Doutor em Filosofia, o professor Homero Santiago é livre-docente de História da Filosofia Moderna na Universidade de São Paulo.

Share: