Texto | HOMERO SANTIAGO
Os sofrimentos humanos variam muito; já a sensação de que estamos continuamente a sofrer, bem como a inclinação a considerar os nossos próprios padecimentos piores que os dos demais, isso sim parece invariável. Há quem apregoe que é um “carma” ser mulher, há quem diga o mesmo de ser homem; uns lastimam serem são-paulinos, outros não concebem pior coisa que ser corinthiano sofredor; os que todo santo dia maldizem a pobreza dividem o mundo com os que têm a pachorra de ventilar que o dinheiro traz tristeza; alguns sofrem horrores por terem nascido nas regiões tórridas dos trópicos, outros na Europa do norte maldizem o frio; tangenciando os extremos, judeus clamam pela classificação do holocausto como o mal em estado puro, ao passo que movimentos negros exigem um semelhante reconhecimento para o fenômeno da escravidão moderna. E por aí vai, cada um com o seu sofrimento, dando forma a uma exuberante e generalizada sofrência; um mundo em que se misturam pesadelos e monstros, íncubos e súcubos, além de todas as ruindades que teimam em nos ter por alvo privilegiado.
Pode existir melhor, mas certamente não mais saborosa expressão da generalidade desse sentimento, que uma velha marchinha carnavalesca intitulada A mulher do leiteiro, composição de Haroldo Lobo e Milton de Oliveira primeiramente gravada na voz da irreverente “dama do Encantado”, charmosa alcunha de Aracy de Almeida:

Todo mundo diz que sofre
Sofre, sofre neste mundo
Mas a mulher do leiteiro sofre mais
Ela passa, lava e cose
E controla a freguesia
E ainda lava as garrafas vazias
No tempo em que o leite se distribuía em garrafas de vidro que, entregues ao amanhecer, eram posteriormente recolhidas e lavadas para serem reutilizadas, num infinito ciclo, a pobre mulher tinha uma carga de trabalho colossal. Não bastassem as funções de dona de casa — passar, lavar etc. —, ajudava o marido no ofício impiedoso: cuidar das relações com a freguesia, controlar as entregas e os fiados, e todo santo dia lavar e lavar (“higienizar”, diria hoje um metido a besta) a vidraria. O desafio da marcha é direto e reto: haverá pior lote do que este? Decerto que não. Por isso chora à toa quem reclama de seu próprio destino e não enxerga a desgraçada vida da esposa de um leiteiro.
A hiperbolização do sofrimento individual (“ninguém sofre mais” que ela) naturalmente é irônica. É fácil imaginar sofrimentos bem piores. Mas estará enganado quem pensar que estamos diante de só mais uma daquelas tradicionais marchinhas cujo fito se resumia a fazer rir por nada e estimular o chacoalho das cadeiras (infelizmente, em regra são essas as que persistiram e são mais tocadas nos carnavais). A marcha em questão é de outro naipe, bem mais sagaz.
Para nem falar da arguta observação da condição feminina, notemos que a canção não somente reconhece a generalidade do sentimento de sofrência como vincula o afeto à autorreferência, pois sempre cremos maior o nosso sofrimento. Todavia… aí vem o alerta: alguém “sofre mais”. O sentido simbólico da sui generis mulher do leiteiro talvez esteja exatamente em ridicularizar os petulantes que sempre concebem o seu sofrimento como o pior e passam a vida a lamuriosamente noticiá-lo aos ouvidos alheios. Bem entendido, a marchinha não afirma nem discute se os sofrimentos individuais são reais ou imaginários, firulentos ou fraudulentos. A sua sagacidade concentra-se sutilmente em duas palavras do primeiro verso: “todo mundo diz que sofre”. Ora, o “dizer” admite tantas variações (como “cada cabeça, uma sentença”, “cada língua, um diz-que”), que no fundo todos têm o direito de, sem mentir nem atraiçoar, invocar dores gigantescas, inclusive as imaginárias, as quais também podem fazer realmente sofrer. Não se trata de negar ou menosprezar os sofrimentos de ninguém. O ponto é outro: reconhecer, não sem certa ironia, a sofrência geral.
Dito isso, eis que chegamos a um ponto candente. Donde essa necessidade ou vontade (também aqui, aspectos cuja discriminação é tênue) de sofrer e muitas vezes superdimensionar o próprio sofrimento? A marcha outrora tão bem interpretada pela voz jocosa de Aracy nos serve de excelente material reflexivo, para finalmente interrogar: por que nos últimos tempos o sofrimento ganhou tanto espaço na política (movimentos que invocam o sofrimento como eixo mobilizador), na vida social (não importa o que, monta-se um plantão psicológico para lidar com o sofrimento dos envolvidos), cultural (organizam-se movimentos e ações em torno dos sofrimentos de certos grupos) e individual (é comum as pessoas começarem um argumento invocando uma experiência sofrida)? Será o desejo de sofrer um dos afetos básicos de nossa época, sempre em aliança com a postura meio narcísica de que o sofrimento que nos atinge é sempre maior e incomparável? Francamente, não acho impossível.
Seja como for, a centralidade hodierna desse afeto de sofrência precisa sempre ser contrabalançada pela desafiadora figura da mulher do leiteiro: se alguém sofre, pode estar certo de que ela sempre sofre mais. O que já pode ser um estímulo a pensar mais e sofrer menos. ■
Homero Santiago é doutor em Filosofia e professor livre-docente de História da Filosofia Moderna da Universidade de São Paulo.
Diagramação | RONALDO CAMPOS
Foto capa | Giuseppe Argenziano na Unsplash
Foto mídia | Aracy de Almeida: Domínio público | Acervo Arquivo Nacional