Por Camila Barreto
Em março deste ano, o Chile deu boas-vindas ao seu novo presidente, Gabriel Boric, de 36 anos, ex-líder estudantil, o mais novo entre os candidatos e também o presidente mais novo da história da democracia chilena. Boric venceu as eleições com ampla vantagem sobre o seu adversário, o ultradireitista José Antonio Kast. A notícia representa muita esperança para o povo chileno, e o começo do que parece ser uma renovação política no país.
A sua chegada ao Executivo simboliza, de fato, uma mudança geracional, pois ele é o representante da juventude, daqueles que protagonizaram a onda de protestos no Chile em 2019, que agora deixa as ruas para embarcar na política institucional, tentando ainda manter-se atento às demandas das ruas. E por falar em demandas das ruas, o presidente chileno declarou que é necessário entregar pelo menos parte do que ruas reivindicaram, e prometeu gastar a sola dos sapatos ouvindo tais demandas.
Boric chega trazendo muitas novidades para a política chilena. Com um governo assumidamente feminista, 14 dos 24 ministérios foram assumidos por mulheres, que ocuparão pastas de grande importância, como a da saúde, da justiça e da defesa. Essa maioria feminina reforça o compromisso do presidente de maior apoio às questões de gênero e diversidade, pois ele afirma que “a riqueza do Chile está, justamente, na diversidade de sua gente”.
O novo governo demonstra interesses variados, grande atenção à questão ambiental, combate à impunidade e à corrupção, além do claro empenho em estabelecer um amplo acordo nacional para dialogar com os diferentes setores. O foco é a mudança estrutural de orientação da esquerda, com dedicação às questões ligadas aos direitos humanos.
Além disso, o presidente que responderá pela quarta economia da América do Sul defende rigorosamente a redução das desigualdades sociais, e diz que pretende convencer os outros setores do governo de que deve haver uma “desconcentração” do mercado, pois, para ele, o crescimento econômico deve vir junto com a redistribuição de riqueza justa. A meta do novo presidente, no que tange à economia, é instaurar um Estado de bem-estar social com apoio popular e foco em resultados concretos em longo prazo.
Obviamente, o novo governo terá de enfrentar muitos impasses. A insatisfação com o sistema de previdência social, herança falida da época de Pinochet, e o acesso mais igualitário à educação e à saúde no país são algumas das reivindicações mais latentes da população chilena. Ademais, para garantir a governabilidade, tendo em vista que o presidente eleito não tem maioria no congresso, será preciso destreza para montar uma equipe de governo que seja transparente e passe credibilidade para a opinião pública do país, e que consiga também acalmar os mercados.
Ainda assim, o governo de Boric dá início a uma nova era no Chile, marcada pela mudança de mentalidade e pela renovação. A pluralidade, a abertura ao diálogo e o interesse em fazer com que a economia cresça para todos são, ao que tudo indica, componentes essenciais para que a transformação social prospere no país. O povo chileno se sente esperançoso, e vislumbra a expectativa de dias melhores que parecem estar por vir.
Camila Barreto foi a vencedora do Projeto Escrita 2019. Atualmente estuda Letras na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo.