Tradução e adaptação de Ronaldo Campos
A covid-19 forçou as pessoas a trabalhar em casa. Seja no quarto ou na cozinha, esses espaços foram ocupados, e muita vezes alterados, mudando a rotina da casa. O home office veio para ficar e o que tudo indica, em 2024 aumentará a disputa entre os colaboradores e os empregadores sobre o local de trabalho.

De acordo com uma pesquisa da WFH Research, os trabalhadores americanos, britânicos e canadenses, que possuem ao menos o ensino médio e trabalham em período integral, passam, aproximadamente, um dia e meio por semana trabalhando em casa. Eles querem aumentar esse número para três dias por semana. Empresas como a Goldman Sachs e Zoom querem justamente o contrário, ou seja, diminuir o trabalho remoto e aumentar o presencial.
Ninguém espera, ou mesmo deseja, um retorno aos cinco dias por semana. O resultado mais provável é que patrões e colaboradores encontrem uma solução intermediária, isto é, diminuir um pouco o home office. Porém, há uma variável econômica que poderá mudar o jogo: o efeito da taxa de juros. Se ela desacelerar a economia e o desemprego começar a aumentar, os empregadores terão mais forças para pressionar as negociações.
A mudança para o trabalho remoto afetou discretamente o setor imobiliário. De acordo com a Kastle, uma empresa que opera sistemas para locação de escritórios, as ocupações nos EUA são cerca da metade do que era antes da pandemia. No entanto, as longas durações das locações significam que as taxas vagas, embora crescentes, têm sido relativamente baixas. A Goldman Sachs calcula que 12% dos arrendamentos serão renovados em 2024, mais que o dobro de 2023.
O banco avalia que um aumento no número de dias de trabalho remoto poderá aumentar o espaço de escritórios vagos nos Estados Unidos — o que seria equivalente a todo o espaço construído em 2022. Considerando que os escritórios com construções mais modernos, e que cumprem os padrões ambientais mais rigorosos, permanecerão com alta demanda e as construções mais antigas terão maior probabilidade de permanecer vazias.
Nada disso é uma boa notícia para os proprietários dos imóveis, principalmente pela alta da taxa de juros. Nos EUA, a maior parte dos empréstimos imobiliários comerciais são concedidos para empresas pequenas, que após o colapso do Silicon Valley Bank, em março de 2023, se viram ameaçadas. E os custos de financiamento para locação das construções mais antigos serão provavelmente ainda mais elevados. Os rendimentos das hipotecas comerciais, por exemplo, são mais elevados para os escritórios mais antigos do que para as construções mais modernas.
Espera-se um aumento na venda das construções mais antigas para serem reformadas ou demolidas. As construções em melhores estados poderão ser transformadas em residências, como vem acontecendo em Londres e Nova Iorque. Em Manhattan, por exemplo, o número 25 da Water Street, que foi ocupado por um jornal e um banco, será transformado num conjunto residencial com 1.300 apartamentos, um spa, uma piscina e um espaço de coworking. A pandemia pode ter acabado, mas em 2024 o home office continuará mudando a forma como e onde as pessoas trabalham.
The Economist, 13/11/2023
The World Ahead | Business in 2024
Rachana Shanbhogue, Business affairs editor, The Economist