Por Ronaldo Campos
A sociedade, de um modo geral, valoriza em demasia o conhecimento científico. Ela o considera como o único porto seguro para se chegar à verdade e, ao mesmo tempo, julga-o como sendo superior em relação aos outros tipos de conhecimentos — por exemplo, os religiosos e os místicos.
O filósofo austríaco Paul Feyerabend (1924–1994) é contra essa ideia. Para ele, a ciência é apenas um dos instrumentos inventado pelo ser humano, que tem por objetivo buscar uma relação e compreensão da realidade. Ele também argumenta que a ciência nem sempre responde, com êxito, aos desafios propostos pela curiosidade humana. Para muitos, a tese de Feyerabend é polêmica, improcedente e perigosa, pois põe em pé de igualdade as práticas ritualísticas e místicas com o conhecimento científico, causando assim, por exemplo, confusão e má interpretação da diferença entre astrologia e astronomia. Outro erro comum é pensar que curandeirismo é algum tipo de medicina.
Não há dúvida de que o conhecimento científico é poderoso, mas nem por isso deixa de ser infalível e, como qualquer outro tipo de conhecimento, apresenta vantagens e desvantagens. Além disso, não há um tipo de conhecimento puro. As diferentes formas de conhecimento convivem entre si, estão entrelaçadas e frequentemente são complementares. Portanto, as concepções que formam a ciência são influenciadas pelos valores, pelos objetivos, pela visão de mundo, pela religião, pela crença, pela arte, enfim, pelos modos de vida de uma comunidade.
Um exemplo interessante sobre os diferentes tipos de conhecimento é o que ocorre com as mulheres maoris, da Polinésia. Elas executam uma dança com movimentos precisos que imitam o vento, a chuva e o desenvolvimento das plantas. Essa dança é para que as sementeiras das batatas floresçam. Para o conhecimento científico, essa dança não faz nenhum sentido, já que não exerce nenhum efeito direto sobre as batatas. Mas tem um efeito positivo sobre as mulheres maoris, uma vez que elas acabam sendo inspiradas pela convicção de que a dança protege a colheita. Desse modo, executam o trabalho com mais confiança e energia. Portanto, mesmo que indiretamente, essa convicção criada pela dança contribui para a colheita das batatas.
Para Feyerabend, a ciência não pode ser governada por um padrão universal. Segundo ele, a violação às regras não seria acidental, mas necessária para o desenvolvimento do conhecimento científico. A ciência seria um empreendimento anárquico, pois não estaria suscetível a qualquer ordem e regras fixas. Muitas das descobertas e muitos dos avanços científicos ocorrem aleatoriamente, ou em franca oposição às regras metodológicas. Assim, as escolhas e as decisões do cientista não devem ser determinadas por regras fixas e abstratas, pois causam uma ruptura na criatividade e na iniciativa deste.
Nesse sentido, Feyerabend argumenta que a tentativa feita por alguns filósofos de impor um padrão universal de conhecimento científico não condiz com o desenvolvimento concreto da ciência. Essa tentativa só a torna dogmática. Então, afinal, o que é ciência para Feyerabend? Como ele pensa que os cientistas devem proceder? Ele diz que não é possível dar uma resposta definitiva a essas perguntas, já que ciência é uma palavra com múltiplas designações. Ela decorre de inúmeras divergências de pensamentos, em diversas escolas, em períodos, muitas vezes, distantes entre si e com métodos e construções variados.
Termino o meu artigo com uma piada que ironiza o conhecimento científico como a única alternativa possível para as realizações humanas:
Um caipira, vendo uma movimentação de homens e equipamentos perto do sitiozinho onde ele morava, vai até lá e pergunta a um deles:
— Cum licença, moço, o que oceis tá fazendo?
— Aqui vai passar uma rodovia — responde o homem — e nós somos os engenheiros e técnicos. Com esses equipamentos nós vamos definir por onde a estrada vai passar.
— Moço, o senhor vai discurpá, mais aqui no sertão nóis faz estrada de otro jeito. Nóis pega uma mula e sorta ela. Onde ela passá… aí é o mió lugá de abri a estrada. Num faia!
O engenheiro, achando graça na simplicidade do caipira, diz sorrindo:
— É mesmo? Não me diga! Mas… e se vocês não tiverem uma mula?
E o caipira:
— Ué… aí nóis quebra o gaio com uns engenheiros…