Por Camila Barreto

O título remete à uma inscrição pintada numa das arquibancadas do Estádio Nacional Julio Martínez Prádanos, em Santiago, no Chile: un pueblo sin memoria es un pueblo sin futuro. A frase está ali em memória aos oposicionistas que resistiam à ditadura de Pinochet, que eram concentrados e torturados naquele estádio. A frase está ali para que o povo chileno não esqueça dos duros anos de ditadura, para que isso nunca mais se repita.

É clichê dizer que deveríamos aprender com os nossos hermanos chilenos que a nossa história é intrínseca ao nosso presente e ao nosso futuro. É clichê, mas, ao mesmo tempo, urgentemente necessário, porque o nosso esquecimento não é apenas um efeito colateral da passagem do tempo, mas, também, um projeto político.

A princípio, podemos tomar como exemplo aquela parte da nossa história mais institucionalizada, ou seja, aquela que fica em museus e palácios, como as obras abrigadas nos palácios dos governos em diversas partes do país, de modo a serem “preservadas”. No entanto, sabemos que até mesmo essa parte física da nossa história que julgamos “protegida” é passível de destruição, inclusive pelas mãos dos próprios brasileiros, como no episódio do ataque ao prédio dos três poderes de Brasília, em 8 janeiro deste ano, onde diversas obras foram danificadas, entre elas o relógio de Balthazar Martinot, presente dado a Dom João 6º pela Corte Francesa, de valor inestimável.

Além disso, ao digitar as palavras “incêndio” e “museu” no Google, você pode se deparar não com uma, mas com três sugestões de museus brasileiros que sofreram com as consequências do descaso com a nossa história: o Museu da Língua Portuguesa, em 2015, o Museu do Ipiranga, em 2018, e o Museu Nacional, também em 2018, além dos incêndios que acometeram a Cinemateca pelo menos 4 vezes nos seus 74 anos. As perdas são irreparáveis, e os projetos de reconstrução e reestruturação dos museus são complexos e demorados.

Poderíamos até dizer “que acidentes como esse acontecem”, como foi o caso da Catedral de Notre Dame de Paris, que também foi vítima de um incêndio devastador em 2019, mas estamos falando de projetos diferentes. Vale ressaltar que a reconstrução da Catedral contou com o engajamento de diversos núcleos franceses, incluindo magnatas, como o milionário Bernard Arnault que, junto à sua holding de luxo LVMH – conglomerado que inclui marcas como a Louis Vuitton – doou singelos 200 milhões de euros para ajudar nos reparos da Catedral, segunda a Forbes.

A diferença é que, talvez, a elite brasileira não esteja tão interessada em reconstruir o que é nosso. Essa é a mesma elite que viaja para a Europa e enfrenta filas nos museus mais badalados para fotografar peças como a Monalisa. Mas até aqui não há nenhuma novidade, tendo em vista que o movimento modernista já falava sobre essa hipervalorização da arte importada em detrimento da valorização da arte nacional há um século atrás – mais uma coisa que possivelmente tenhamos esquecido.

O nosso manto tupinambá, uma peça ritualística indígena que foi aqui encontrada no século XVI, sobrevive hoje no Nationalmuseet, na Dinamarca. Por que não conseguimos que o nosso manto seja abrigado pelo nosso país? Há inúmeras implicações, dentre elas a logística de trazê-lo para cá. Mas, talvez, o desinteresse político pela nossa própria história seja a mais latente. Afinal, o nosso projeto político é de esquecimento e de apagamento da memória dos povos originários que aqui já estavam, os verdadeiros donos das terras, os que hoje ainda enfrentam tragédias humanitárias por conta do descaso e do desamparo governamental.

O nosso esquecimento crônico é, também, legalizado. Quando ampliamos essa discussão para além da história da arte, precisamos nos dar conta, também, que nós, o país da Lei Anistia, legalizamos o esquecimento não só dos crimes de tortura e morte que foram cometidos durante a Ditadura Militar, mas também daqueles que foram mortos injustamente. Ao esquecer, não conseguimos elaborar esse passado de modo a reafirmar e garantir uma democracia justa e plena, sem ameaças. Por conta disso, vemos indignados movimentos antidemocráticos pipocarem pelo país.

Não se pode falar em desenvolvimento social sem falar da nossa própria história, do mesmo modo que não se pode pensar a democracia sem um projeto de memória. O nosso avanço depende do reconhecimento das nossas origens, dos povos originários, da preservação dos nossos museus, da elaboração e não negação do nosso passado, da não anistia. Fomentar uma memória de resistência no país é essencial para o processo de construção da nossa identidade enquanto nação. Que o manto retorne, que democracia viva e a história não se repita. Lembremos para seguir adiante.


Camila Barreto foi vencedora do Projeto Escrita 2019. Atualmente estuda Letras na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo.

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